Frôxo já não agüentava mais. Um dia de caminhada dentro da montanha e tudo o que conseguia ver era a escuridão. Barangorn liderava o grupo, usando uma espécie de pedra fluorescente. Segundo ele, acender uma tocha poderia ser muito perigoso, pois certamente provocaria uma explosão de proporções catastróficas. Para Frôxo, ele estava sendo demasiadamente cuidadoso. Antes de entrar na tal montanha, Barangorn tinha distribuído uns cilindros que, segundo ele, estavam cheios de ar puro. Sem falar dos predendores de narinas em mithril, que cada um tinha recebido:
- Itu é casu nóis veja Flautulus. Ocês ponham nu nariz, quié pá num cheirá nata. Us tilindru, ocês ponham na boca, quié procês rispirá – instruiu Barangorn.
- Isso é ridículo! Acaso tem um gambá-carniça preso dentro desta montanha??? – contestou Frôxo.
- Algo muito pior, meu caro. Muito pior. Flautulos deixa um gambá-carniça asfixiado – Comentou Blue.
Para que vocês entendam a gravidade do comentário de Blue, vejamos o que o Guia do Mochileiro da Terra Alta (compre já o seu!) nos diz sobre o gambá-carniça:
“Gambá-Carniça:
Um dos animais mais fedidos de toda a Terra Alta. Seu cheiro é tão terrível que nem mesmo eles agüentam viver em grupo. Na verdade, nem mesmo eles suportam o próprio cheiro. Este animal aparece em muitos mitos e lendas do folclore autista. Há até mesmo uma superstição que diz que se alguém ver um gambá-carniça, terá azar por toda a vida. Na realidade, poucos conseguem ter contato visual com um, pois ninguém agüenta chegar tão próximo a ele.
O Gambá-Carniça chama a atenção dos estudiosos autistas. É o único caso da natureza onde os animais fazem sexo não por instinto, mas sim por obrigação. Por essa razão, são raríssimos. E é também um dos pouquíssimos casos em que o animal define o habitat em que vive. Afinal, sua mera presença é capaz de fazer a flora do ambiente apodrecer. Já se cogitou fazer um uso bélico deste animal, mas a idéia foi abandonada devida à alta periculosidade de criá-lo em cativeiro.”
Esclarecido o que é um gambá-carniça, voltemos à nossa narrativa. Já passava, pois, mais de um dia de caminhada dentro da montanha, e o visual não era nada animador. O caminho também não ajudava, pois era extremamente sinuoso. Subida, descida, descida íngreme, subida, mais descida, descida realmente íngreme, e assim por diante. A situação só ficou interessante quando Blue tropeçou em algo no chão:
- Que droga é essa??
Barangorn focou a luz no chão, para que pudessem ver onde pisavam. Foi então que viram esqueletos espalhados por todo o lugar. Bem, não viram por todo o lugar, mas não precisava pensar muito para chegar nesta conclusão. Em todos eles, uma característica em comum. Suas mãos estavam obstruindo o que antes foram seus narizes. Em alguns podiam-se ver ainda as expressões de extrema agonia pela qual passaram. Sem dúvida aquela era a prova de que Flautulos era bem mais do que uma velha lenda autista.
- Cadáááá…- Blue desmaiou. Barangorn colocou todo o equipamento no rato e em si. Mandou Frôxo fazer o mesmo. Não era hora de se descuidar. Pôs Blue nas suas costas e ordenou Frôxo a segui-lo fazendo o menor barulho possível.
Continuaram a caminhar. A tensão só aumentava e Frôxo começou a perceber que a densidade do ar também. Ao menos ele queria acreditar que era ar. Mais parecia que eles estavam andando submersos em algum lago. Na verdade, o gás que Flautulos exalava era tão denso que chegava até mesmo a limitar os movimentos. À medida que avançavam, os dois começam a escutar um respirar, vindo mais adiante do corredor. Só podia ser Flautulos, o Fedorento. Como não tinha o que fazer, continuaram indo em frente, com o maior cuidado possível. Podiam sentir o vento causado pela respiração do monstro. Fosse o que fosse, era enorme e felizmente estava dormindo. Frôxo era um legítimo representante do seu nome: tremia feito gelatina pegando carona em uma carroça desgovernada.
Quando julgavam estar diante do monstro, o pior aconteceu: Frôxo pisou em um graveto. Não foi o barulho do graveto sendo pisado que acordou Flautulos, mas sim a pergunta que Frôxo fez em seguida:
- O que faz um graveto aqui??
- Psssssiu! – Alertou Barangorn. Mas já era tarde demais. Dois olhos vermelhos brilhavam na escuridão e uma voz tonitruante preencheu toda a caverna:
- Quem está aqui??? Quem ousa despertar Flautulos??!?!
Então o monstro começou a andar. Uma fraca luz começou a invadir a caverna. Barangorn percebeu de imediato que se tratava de uma saída. Frôxo percebeu de imediato que Flautulos era um dragão, e dos grandes. Os dois juntos perceberam de imediato que Flautulos estava entre eles e a saída, e que isso iria complicar as coisas. Por sua vez, Flautulos ainda não percebera onde eles estavam escondidos. Blue não percebera nada, pois ainda estava desacordado. O dragão decidiu amendrotá-los:
- Vocês sabem que eu sou?? Sabem do que sou capaz?? Devo avisá-los que comi um pãozinho com ovo ainda agora, e neste momento estou terminando a digestão.
A série de risinhos nervosos de Frôxo denunciou a posição deles. O enorme réptil virou-se e usou sua arma mortífera:
- Ria disso seu pobre mortal!! Háháháhá!!!!
O que veio depois foi o terror. Para sorte dos três, eles ainda conseguiram se esconder atrás de um rochedo. Parecia que um tornado estava destruindo o lugar. Seguravam-se na rocha como podiam. Se pudessem sentir o cheiro do ar naquele instante, estariam mortos.
Foi nesse momento desesperador que Frôxo teve uma idéia. Caso não saibam, Frôxo era capaz de ter idéias brilhantes em momentos desesperadores. Infelizmente aquele não foi o caso. A idéia que ele teve ali foi totalmente idiota e somente por pura sorte acabou dando certo. Se Frôxo soubesse dos problemas que iria enfrentar no futuro, com certeza teria evitado essa manobra. Mas no momento, foi tudo que conseguiu pensar. Com dificuldade ficou em pé e gritou com toda a força:
- (censurado), (censurado), (censurado)!!!!!
Uma risada maligna preencheu o lugar. O cheiro ébrio de limão não invadiu o lugar, pois no quesito cheiro, Flautulos comandava. Então ele surgiu. O pesadelo de todo autista, aquele cujo nome faz tremer muitos. Você-Sabe-Quem.
- Quem me chamou??
Frôxo e Barangorn apontaram para Flautulos ao mesmo tempo e gritaram em uníssono:
- Ele!!!
- Não!! Mentira, foi aquele ali, com cara de idiota!! – Tentou defender-se Flautulos.
- Bem, são dois contra um, então eu escolho você! Bwhahahahahahaha!!!!
- Sabe quem sou? Flautulos, o Fedorento!!! Não pense que tenho medo de você!!!
- Ah, prazer, meu nome é (censurado). Faz tempo que não pratico a Fofoquiromancia, então, me desculpe se nunca ouvi falar de você.
- Ah, maldito! Aquela batata com doce de leite que comi ainda a pouco vai fazer você se arrepender do que disse!
- Eu sou o único imune à suas flatulências!!
- Argh!!! – A mentira de Você-Sabe-Quem acertou Flautulos em cheio. Enquanto isso, Frôxo e Barangorn tratavam de escapar dali. Que os dois resolvessem suas diferenças. Ainda podiam ouvir o barulho do terrível combate sendo travado na caverna, à medida que subiam até a saída. Então a montanha começou a tremer. Flautulos devia estar usando seu último recurso, um repolho podre que tinha comido no dia anterior. Blue finalmente acordou com o barulho.
- Mas o que está… – nesse momento ele se deu conta do prendedor de narinas e o tirou. Desmaiou novamente.
- Nóis tá muito pertu dele ainta. Rápitu, qui a montanha vai desmoroná.
Os dois subiram como um raio. Finalmente alcançaram a saída daquela montanha terrível e por pouco não foram soterrados lá dentro. Eles tinham vencido uma parte dificílima da viagem. Adiante estava a estrada que levaria ao Pântano do Paul. Só que eles não foram diretamente para lá. Antes foram para a Capital da Praça, onde estava ocorrendo o Campeonato Anual de Dominó Autista. Só que isto é história para outro capítulo.
Escrito por Big_DJouse