Contos da Terra Alta – Capítulo IX

Janeiro 6, 2006

- Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!! Era exatamente assim sua risada enquanto tramava algo muito, muito ruim. Soava no mínimo cômica, mas se alguém levasse um pouco a sério, podia perceber um breve toque maligno nela. O dono da risada era mau e poderoso, líder da ordem de Magos de Guadalópez. Uns poucos o conheciam pelo nome. O resto o conhecia pelo pomposo título de “Mestre dos Magos”. Um homem que detinha o poder sobre boa parte da Terra Alta. E como qualquer um que detenha poder sobre boa parte de qualquer coisa, Mestre dos Magos queria mais. Queria toda a Terra Alta. Queria o mundo. O universo. E se soubesse da existência de universos paralelos, iria querê-los igualmente. Não necessariamente nessa ordem.

Pois era exatamente sobre isso que ria. Achara uma maneira de conquistar a Terra Alta. Um bom começo, pensou. Aquela informação seria seu passaporte para a felicidade. Depois de meses pesquisando naquela biblioteca bolorenta, finalmente encontrara algo útil. Um livro antiqüíssimo que revelava a existência de um artefato de extremo poder: O Anel Alheio. Só restava duas coisas. A primeira é saber onde ele estava. A segunda é descobrir como usa-lo.


- Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!


- Há há há há!!!


Mestre dos Magos levou um susto. Debruçou-se sobre o livro antigo que mostrava uma imagem do Anel Alheio. Quando se refez, olhou para quem estava gargalhando junto a ele. Era apenas um assistente que sempre estava por ali perto.


- Do que você está rindo, idiota?


- Não sei, senhor. Apenas vi o senhor rindo, com certeza devia ser algo engraçado. Ri para acompanha-lo.


- Ah, retire-se daqui, imbecil! – gritou Mestre dos Magos, recostando-se na poltrona. O assistente olhou para o livro por cima de seu ombro, como se estivesse procurando a piada. Viu o desenho do Anel.


- Hum, esse anel, acho que vi em algum lugar…


- Viu?! Onde?!


- Não lembro. Mas não faz tanto tempo.


- Trate de lembrar, imprestável! Sabe que Anel é esse?


- Hum, não senhor.


- Melhor assim. Não quero curiosos no meu caminho. Não dê uma palavra sobre o assunto a quem quer que seja, entendeu?


- Sim senhor!


Mestre dos Magos levantou-se e fechou o livro. Não tinha mais nada para fazer ali. Mandou o assistente arrumar tudo por ali e organizar os detalhes de seu retorno à Torre de Guadalópez. Quando estivesse lá, poderia arrancar a memória do pobre homem e saber da pista do Anel que ele tinha.


Algumas horas mais tarde, quando estavam na carruagem já próximo da Torre, o assistente disse repentinamente:


- Já sei! Foi na Capital da Praça. Aquele anel faz parte do troféu do Campeonato Anual de Dominó Autista. Se não me engano, as inscrições se encerram hoje.


- Cocheiro!! Dê meia-volta! Vamos para a Capital da Praça. Agora mesmo! – ordenou Mestre dos Magos, com um brilho maligno no olhar.

* * *

Blue finalmente tinha acordado. Frôxo estava sentado, comendo uns pedaços de mithril em frente à fogueira. Ainda não chegara o meio-dia, mas o sol já os castigava com o calor. Pouco a pouco Blue foi tomando consciência do mau cheiro que o impregnava.

- Argh! Que catinga! Cadê o velho?


- Foi tentar arrumar umas roupas com um mercante aqui perto.


- O que aconteceu? Por que a gente tá fedendo tanto?


- Por quê? A donzela perdeu tempo demais desmaiando?


- Já falei sobre isso. Não posso ver sangue.


- Eram esqueletos, Blue! Esqueletos! E morreram asfixiados!


- Bah, eu tenho certeza que vi uma mancha de sangue num daqueles esqueletos. Mas afinal, o que aconteceu?


Frôxo explicou-lhe todo o acontecido lá na montanha. De como quase foram devorados por Flautulos, e de como sua idéia genial salvou-lhes a vida.


- Você é idiota? Você o chamou!? Você-Sabe-Quem?


- Sim e se não fosse por isso…


- Se não fosse por isso nada! Você é um idiota. Um tremendo idiota. Um estupendo, colossal e magnânimo idiota! Você tem idéia do que fez?


- Bem, Barangorn falou o mesmo que você, mas não me explicou porquê.


- Você nunca ouviu falar da história de Você-Sabe-Quem?


- Não, nunca.


- Bem, depois eu conto. Barangorn já está voltando. Mas que você é um idiota, ah, isso você é.


Frôxo já estava se convencendo de que era um idiota de fato. Mas quando Barangorn voltou, decidiu não pensar muito no assunto. O guia estava trazendo um grande embrulho e já usava novas roupas. Quando se aproximou mais, mandou os dois tomarem um banho em um lago próximo usando uns pedaços de sabão que tinha comprado. Por sorte, foi suficiente para que eles se livrassem do cheiro de Flautulos.


Quando finalmente os três recomeçaram a viagem, eles pararam em uma bifurcação. A placa que indicava o caminho era bem clara. A estrada da esquerda levava ao Pântano do Paul. A da direita, à Capital da Praça. Mas Blue se interessou por um panfleto que estava grudado logo abaixo na placa. Depois de ler com certa excitação, declarou:


- Vamos pela direita!


- Mas não íamos para o Paul? – perguntou Frôxo aturdido.


- Mudança de planos. Tem um campeonato de dominó na Praça. Não posso perder essa por nada!


- Deiz muêda de ôro – Barangorn falou por fim.


- Hein?


- Fiz meu contratu pá ir pu pântanu. Si u sinhô mudá u destinu, u preçu aumenta.


- Tá legal. Frôxo, paga a ele.


- Eu?!


- Não se preocupa, cara. Vou ganhar esse torneio, e a premiação deve ser bem gorda. Depois acerto com você.


- Espero que sim.


Com todos os detalhes acertados, o trio foi finalmente para a Capital da Praça. O campeonato que estava para acontecer seria memorável. O porquê? Aguardem.