- Como assim não posso me inscrever? O campeonato ainda não começou! – Blue estava nervoso, tentando inutilmente convencer a moça que trabalhava na banca de inscrições. Frôxo estava com ele, achando aquilo tudo uma tremenda perda de tempo e dinheiro. Afinal, além de ficar responsável por pagar a taxa de inscrição, ainda estava bancando o hotel onde todos os três se hospedaram. E os hotéis, nesta época do ano, eram bem caros.- Já disse, senhor. As inscrições se encerraram ontem. Não posso fazer nada.
- Mas isto é um ultraje! Você não tem o direito de me impedir de participar no campeonato, ouviu? Eu…
- Blue, vamos embora, não adianta. A moça não tem culpa de nada.
Por fim, Blue desistiu. Xingava tudo e todos. Frôxo, que estava aliviado por não ter que gastar mais dinheiro, sugeriu que fossem para uma taverna ali perto, beber alguma coisa e esfriar um pouco as idéias. Blue, de má vontade, concordou.
A taverna esta bastante movimentada. Barulhos de garrafas sendo quebradas e homens gritando e cantando podiam ser ouvidos ao longe. O lugar fedia a suor e cerveja. Blue e Frôxo conseguiram encontrar uma mesa que estava sendo ocupada por um bêbado que roncava em alto e bom som. Uma garçonete entregou-lhes duas canecas de cerveja quente, sem ao menos perguntar se queriam ou não. Os dois se entreolharam e acharam que, para suas integridades físicas, o melhor era beber.
Pouco tempo depois, sentaram-se, na mesa vizinha à deles, um homem alto e magro e seu comparsa, um velhote que tentava à todo custo fazer uma ligação em um celular imaginário. Já estavam completamente bêbados e comemoravam a sorte de terem feito a inscrição no campeonato de dominó a tempo. Blue ficou de olho nos dois.
- Isso aê Zé* (hic)! Esse campeonato ta no papo (hic)!
- Nóis treinou o ano inteirinho (hic). Nóis não têm como perder (hic)! Viva a nóis!!!
Os dois pegaram um pedaço de papel e agitaram ao alto. Blue, com muito esforço, percebeu que se tratava do comprovante de inscrição do campeonato. Subitamente teve uma idéia:
- Frôxo, me dá uma moeda de ouro.
- Quê? Vai trabalhar, vagabundo!
- Rápido! Eu tenho um plano.
Frôxo deu-lhe uma moeda. Blue levantou-se, pegou duas garrafas e, sem cerimônia, quebrou-as nas cabeças dos dois amigos. Um ainda gritou “DJABÉISSU???”, mas os dois desmaiaram na mesma hora. Todos pararam e olharam para Blue, surpresos. Um silêncio desconfortável surgiu. Sem saber o que fazer, Blue gritou:
- Viva a cerveja!!!!
- VIVA!!!!!
Todos gritaram em uníssono e recomeçaram a se divertir, como se nada tivesse acontecido. Satisfeito, Blue pegou os comprovantes dos dois bêbados e falou com o dono do lugar:
- Taverneiro, eu quero que aqueles homens ali passem o resto do ano aqui, bêbados. – ao dizer isso, entregou-lhe a moeda de ouro. Chamou Frôxo e saiu dali o mais rápido que pôde.
- Rá! Ninguém podia contar com minha esperteza! Estamos no campeonato, Frôxo!
- Você quer que eu finja ser um daqueles dois? Isso é desleal, desonroso, e o mais importante, dá cadeia!
- Que é isso, meu chapa! Pense nisso como uma espécie de substituição dentro de uma equipe. Veja, aqueles dois não tinham a menor chance. Agora, eles vão ficar lá dentro, bebendo felizes enquanto ganhamos o campeonato para eles. Todo mundo lucra, não percebe?
- Eu só vou aceitar fazer isso porque senão nunca mais vejo meu dinheiro. Mas se formos pegos…
- Não seremos pegos, confie em mim. O campeonato desse ano será de Zé e Zé. Já vejo nosso nome no cenário mundial de dominó!
- Não é nosso nome, Blue.
- Lembra daquela história de equipe? Então. É como se fosse nosso nome.
E assim os dois passaram o resto da noite. Blue sonhando com o estrelato de um jogador profissional de dominó e Frôxo com a sensação ruim de que iriam se dar mal.
***
Mestre dos Magos estava descansando confortavelmente na suíte mais cara do hotel mais luxuoso da Capital da Praça. Fumava os charutos mais caros de toda a Terra Alta e espreguiçava-se na cadeira feita pelo artesão mais famoso (e careiro) do mundo conhecido. A vida não poderia ser melhor. Mais ele nunca estava satisfeito. Precisava por suas mãos no Anel Alheio. Poderia fazer isso da maneira mais fácil, apenas conversando com os organizadores, afinal tinha influência o bastante pra isso. Mas que graça teria? O sabor da conquista só melhora com a dificuldade.
Enquanto pensava sobre o que iria mais conquistar assim que tivesse o Anel, um esbaforido rapaz entra nos seus aposentos.
- E então, fez o que pedi, seu paquiderme imbecil e fanho? – perguntou Mestre dos Magos para seu fiel capacho.
- Sim senhor. Subornei todas as duplas, como o senhor exigiu. Eles ficam com o prêmio, mas lhe entregarão o troféu assim que puderem.
- Gastei muito dinheiro nisto. Você tem mesmo certeza de que foram todas, besta acéfala e anêmica? – o olhar inquisitivo do Mestre dos Magos assustou o pobre jovem, que achou melhor contar a verdade:
- Bem, apenas duas duplas ficaram de fora, mas penso que isto não seja problema, senhor.
- Desde quando é pago para pensar, sua cópia mal feita de uma ameba lobotomizada? Quais foram as duplas que não foram subornadas, inútil asno sem dentes?
- Bem, uma dupla de bêbados, chamada de Zé e Zé.
- Esta não me causará problemas. Qual a outra, pedaço de jaca infeliz?
O jovem vacilou em responder, e Mestre dos Magos irritou-se:
- Fale, seu monte de fezes albinas!
- Uskabba e um mago… chamado Jubolf.
- O QUÊ? Aquele elfulera* e aquele mago senil? O que eles pretendem??
- Não sei, senhor.
- Claro que não sabe. O que uma girafa sem pescoço como você poderia saber? Saia daqui, agora mesmo! Antes que eu transforme você em um cachorro sem braços!
O rapaz saiu correndo. Mestre dos Magos agora estava preocupado. Talvez aqueles dois quisessem apenas se divertir, ou talvez não. De qualquer maneira, ficaria de olho.
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* Zé e Zé: Se você ficou surpreso com a reaparição destes dois personagens, e achou que isto não fez nenhum sentido, já que eles morreram em um capítulo anterior, saiba que está completamente certo. Trata-se de uma moderna técnica de narrativa de humor, o Looping de Personagens Inúteis (LPI). Esta técnica consiste em usar personagens ridículos e os fazer aparecerem em diversas ocasiões sem nenhuma relação entre si, causando assim um efeito cômico. Preparam-se, pois este efeito será usado à exaustão aqui.
*Elfulera: Segundo o “Guia do Mochileiro das Terras Altas” elfulera é “a denominação para uma das muitas raças míticas que habitam a Terra Alta. Sempre misteriosos, eles têm a incrível habilidade de descobrir coisas sobre você antes que você perceba”.
Escrito por Big_DJouse