Contos da Terra Alta – Capítulo XII

Agosto 2, 2006

Finalmente, após algumas horas de atraso, começou o torneio. Um telão armado próximo das arquibancadas, equipado com os últimos recursos da magia eletrônica, mostrava cada lance emocionante das partidas que se desenrolavam no estádio. É claro que os torcedores, como bons autistas, também se valiam da fofoquiromancia para saber exatamente o que estava acontecendo. Frôxo, como de costume, estava nervoso, rindo sem parar. Ele e Blue fariam a ultima partida daquela fase, que já era uma eliminatória. Após revisar as lições que Uskabba tinha lhe passado sobre o jogo, ele descobriu que esquecera todas. Bastava agora apelar para a sorte. – É só jogar as peças com o número de pontos iguais aos da mesa, Frôxo. Não tem erro – explicava Blue. – Certo. Número igual, joga a peça. Número igual, joga a peça. Número igual… – e assim Frôxo seguiu para seu lugar à mesa.

A primeira partida era contra uma dupla inexpressiva. Blue estava confiante. Jogava aquilo desde garoto, praticamente conhecia o segredo das peças. Era bem verdade que Frôxo nunca havia jogado, mas esse ínfimo detalhe não iria lhe atrapalhar.


Com tudo pronto, deram início à partida. Depois de duas, três rodadas, não demorou muito para Blue perceber o quanto se enganara. Frôxo parecia jogar a favor dos adversários. Ele tremia e mal conseguia segurar suas peças. Quando jogava, sempre prejudicava Blue. Desse modo, a partida já estava quase no fim, e todos estavam certos que a dupla Zé & Zé sairiam logo no começo do torneio. Até que aconteceu um milagre.


Frôxo, pelo jeito que estava jogando, sabia que a profecia do mago iria acontecer palavra por palavra, e não o inverso como Uskabba insistiu em lhe fazer acreditar. Esse pensamento somente o deixou mais nervoso, e por conseqüência, sua tremedeira aumentou. Isso fez uma das peças em sua mão cair, com a face dos números para cima. O juiz, que estava de olho no lance, setenciou:


– Você é obrigado a jogar esta peça agora.


– Mas eu ia jogar outra…


Blue mal acreditou quando viu a peça. Era o número que precisava para retomar a vantagem. Quase não se conteve:


– Joga Frôxo! Joga! Pelo amor de Deus! Obedeça ao juiz!


O juiz acabou mostrando um cartão amarelo para Blue, pois este pediu por uma peça. Mas ainda assim não voltou atrás e exigiu que Frôxo jogasse a peça que tinha caído na mesa. Frôxo, sem mais o que fazer, obedeceu. Com essa jogada eles viraram o jogo milagrosamente.


A multidão foi ao delírio. Todo mundo aplaudiu aquela vitória incrível. Daquele momento em diante a dupla Zé & Zé começou a liderar o torneio e virou a preferida da torcida. Apelidaram Frôxo de Zé Pequeno (já que ele era baixinho) e Blue de Zé Gabiru. Começaram a surgir histórias de como o tal Zé Pequeno iniciou o torneio perdendo, para que, na hora da virada, deixasse teatralmente cair sua peça vitoriosa e liquidasse a primeira dupla.


Frôxo mal podia acreditar. Qualquer peça que jogasse, mesmo sem entender nada da partida, acabava criando uma jogada incrível. Blue já estava irritado com um boato que surgia sobre Zé Pequeno ser o cérebro da dupla. Mas o fato é que, depois de dois dias de partidas, estavam na final do torneio. E a dupla que iriam enfrentar era, nada mais, nada menos que Jubolf & Uskabba.


Havia somente uma pessoa que não estava satisfeita com o desenrolar do torneio, além das duplas derrotadas, é claro. Mestre dos Magos, dentro da sua habitual suíte mais cara, do hotel mais caro da Capital da Praça, fumava seu habitual charuto mais caro e dava sua habitual bronca no seu assistente:


– Está vendo seu imbecil? Olha só a desgraça que me aconteceu! Agora como vou conseguir o um Anel, sua foca vesga?


– Não se preocupe senhor, eu darei um jeito de convencer a dupla vencedora…


– Você dar um jeito? Você não dá jeito nem em você mesmo, seu ornitorrinco alado! Descubra o que puder sobre esses Zés. Tenho certeza de que eles irão ganhar o torneio. Eles não são iniciantes, como você, seu demente iletrado, me fez acreditar. Eu quero algo sobre eles que possa usar ao meu favor, entendeu?


– Sim, senhor.


– Ótimo.


– …


– O que está esperando, sua morsa leprosa?


– Nada, senhor. Estou partindo imediatamente.


Mestre dos Magos já não lhe dava mais atenção. Estava tramando planos que iam do B ao Z, caso seu assistente não conseguisse alguma informação importante. E principalmente, sonhava com o poder do Anel Alheio em suas mãos:


– Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!


E assim, com essa risada maligna, terminamos este capítulo. Aguardem o próximo, onde finalmente o Torneio Anual de Dominó Autista elegerá sua dupla vitoriosa.