– E se não fosse minha jogada, Frôxo não teria encaixado aquela quadrada!
Blue contava todos os lances do dia para Barangorn, que tinha decidido passar todo o seu tempo no conforto do hotel. É claro que o rato alterava um pouquinho a história a seu favor, mas Barangorn, assim como todo mundo, sabia que ele era na verdade um peso morto na dupla.
– I aminhã é a final?
– É sim. E a partida está praticamente ganha. Veja as possibilidades, Bara (Posso te chamar assim, né meu chapa?). Torneios e mais torneios. Prêmios e mais prêmios. Mulheres. Ah sim, cederei algumas entrevistas e contratarei uma equipe de marketing. Comerciais e quem sabe uma carreira no cinema…
No seu delírio, Blue já abraçara Barangorn e passava a mão pelo horizonte, como se estivesse lendo seu nome em um letreiro imaginário. Barangorn achou melhor mudar o assunto:
– Homi, i ondi tá Frôxu?
– Ah, aquele babaca tá no bar do hotel se embriagando com leite. O coitado quase não agüentou a pressão destes últimos dias. Mas daqui a pouco já volta, mandei ele se segurar na bebida, afinal amanhã é o meu dia.
Neste exato momento, alguém bateu à porta. Blue completou, enquanto ia abrindo:
– Não disse? Só espero que ele tenha me escutado e…
Blue se assustou com a cara sorridente de Uskabba e o vulto de Moisés com um chapéu ridiculamente pontudo que estava logo atrás dele. Uskabba então falou da sua maneira irritantemente tranqüila:
– Olá, meu jovem. Podemos entrar?
– Hã? Quê… O quê é que vocês estão fazendo aqui?
– Só queremos conversar um pouco.
– Conversar? Já sei, vocês vieram me comprar!
– De maneira alguma meu jovem. Viemos deixar-lhe a par de um grave problema que poderá afetar a todos nós se não nos unirmos e…
– Rá rá rá!! Essa é boa! Ta me achando com cara de idiota? Não adianta vir com conversa mole. Eu sei! Vocês querem ganhar de qualquer jeito e estão tremendo de medo da minha genialidade no dominó. Mas não adianta, porque…
Nesse momento, Blue teve um leve vislumbre do lendário poder de persuasão e educação que Jubolf, o vulto de Moisés que ali estava, possuía. Em uma lenda bastante difundida, Jubolf, alguns séculos antes de ingressar no campo da magia, teria sido um mero professor de etiqueta e oratória na Torre de Guadalópez. Não havia nenhuma confirmação nos bancos de dados do RH da Torre, muito menos pelo próprio. Apenas a certeza que, por algumas demonstrações como a que Blue presenciava no momento, ele poderia ter sido o melhor professor de etiqueta e oratória já visto:
– CALA ESSA MALDITA BOCA E DEIXA A GENTE ENTRAR, RATO DOS INFERNOS! SENÃO VOU FRITAR O SEU RABO DE UMA MANEIRA QUE DEIXARÁ ZEUS COM INVEJA, ENTENDEU?
Blue não soube se foi a voz tonitruante do mago ou as faíscas elétricas que começaram a brotar do seu cajado que o persuadiu de uma maneira tão rápida. Ele apenas se viu convidando os dois a entrar e a sentarem-se no espaçoso sofá da sala, enquanto ia preparar um café. Barangorn, que já conhecia os dois desde muito tempo, não ficou surpreso por vê-los e perguntou o que os trazia até ali. Afinal, revê-los era apenas sinal de que algo errado estava acontecendo.
- Não ainda acontecendo, adiantou Jubolf, mas na iminência de acontecer. Precisamos nos antepor aos eventos. O outro tolo está chegando, vamos esperá-lo para deixar tudo às claras.
Depois de alguns segundos, a porta se abre. Frôxo, ainda sem se dar conta da presença das visitas, entrou e perguntou:
– Blue, acaso você sabe o que é uma quadrada??
Só então, quando passou os olhos pela sala, viu o mago e o elfulera.
– Ah, olá… O que fazem aqui?
– Sente-se e escute com atenção – disse simplesmente Jubolf.
Quando todos estavam na sala confortavelmente sentados, o velho mago começou a contar a história:
– Há muito, muito tempo atrás, quando Você-Sabe-Quem andava livre pela Terra Alta, ele teve uma idéia maligna. Naqueles dias, o maldito era amigo de todos, até finalmente todos se darem conta do terrível engano que cometiam ao ofertar-lhe aquela amizade. Pouco a pouco os autistas cortaram suas relações com Você-Sabe-Quem. O último deles, porém, teve um destino infeliz. Quando o pobre autista disse ao Mentiroso que não queria mais sua amizade, Você-Sabe-Quem enlouqueceu. Matou-o com uma mentira terrível e roubou-lhe um anel dourado que ele trazia na mão esquerda.
“Pouco depois, ainda ensandecido, o maldito foi até a caverna de Mordor e proferiu uma mentira tão grande que, segundo diz a lenda, o vento recusou-se a levar para os quatro cantos do mundo. A mentira ainda ecoa naquela caverna, capaz de matar quem a escute. Nesse mesmo lugar, Você-Sabe-Quem lançou uma maldição naquele anel, uma maldição que obrigaria todos os autistas a serem seus amigos novamente. E, para confirmar sua intenção maligna, ele gravou os versos dessa maldição no Anel Alheio.”
Solenemente, Uskabba começou a recitar os versos da maldição:
“Um anel para todos me amar, Um anel para encontrá-los,
Um anel para a todos trazer e na minha amizade aprisioná-los
Na Caverna de Mordor onde as mentiras espreitam.”
Frôxo e Blue tremeram diante aquela citação terrível. Um trovão ecoou lá fora, fazendo Frôxo pular da poltrona.
– Rá rá rá! Eu adoro esse efeito! – falou Jubolf, sorrindo como uma criança que pregara uma peça.
– Foi você quem…
– Sim, mas me deixe continuar a história.
“Logo após isso, Você-Sabe-Quem conseguiu uma breve, mas massiva vitória. Ele realmente começou a conquistar a amizade de milhares de autistas. Foi preciso uma forte união entre magos, elfuleras e homens e uma grande guerra para que finalmente conseguíssemos parar o maldito. Em uma grandiosa batalha, o grande rei Baranbaragorn decepou o dedo que continha o anel, aniquilando os poderes de Você-Sabe-Quem… por um certo tempo. O grande rei (sim, seu estúpido, era o tetra-penta-avô de Barangorn, não me interrompa mais!) reclamou para si o Anel, e ao invés de destruí-lo para todo o sempre, decidiu guardá-lo.”
Blue fez menção em se levantar:
– Espera aí que vou beber água. Não continua a história sem mim!
– Sossegue esse rabo nesta cadeira, se não quiser que um daqueles trovões exploda sua maldita cabeça.
“Não tardou para que o grande rei começasse a contar mentiras. E de mentiras partiu para a obsessão por amizades. E então iniciou-se outra guerra, e mais outra e mais outra, sempre sob a influência do Anel. Até que a história se perde sobre o destino final do Anel. Talvez ele tenha ficado perdido por um bom tempo, mas infelizmente, só até agora.”
– O que você quer dizer? – perguntou Frôxo, de olhos esbugalhados.
– O que eu quero dizer é que o Anel voltou! Talvez estivesse tirando férias, sei lá. O que importa é que ele voltou, e com certeza reclamará pelo seu verdadeiro dono.
– O carinha que Você-Sabe-Quem matou?
– Não, seu demente! Você-Sabe-Quem em pessoa!
– Mas o anel não era do carinha?
– Não! Quer dizer, era! Ora, cale-se! O que finalmente quero dizer é que a merda do Anel está atachado ao troféu deste maldito torneio. E é por isso que precisamos ganhar o torneio, caso contrário o Anel cairá em mão erradas.
– Rá! Finalmente! – atalhou Blue – A máscara finalmente caiu! A história é muito boa, mas você realmente acha que iríamos acreditar? Você só quer levar o torneio no bico, só isso!
– Vocês podem ganhar o torneio, só queremos o troféu. – explicou Uskabba.
– Nem uma coisa nem outra! O troféu será nosso! Se quiser ele, que ganhe a partida!
Jubolf levantou-se. Sabia que aquela discussão seria inútil. Caminhou até a porta e disse:
– Você está cometendo um grave erro, pequeno rato. Nós não somos seus inimigos. E “ele” não morreu soterrado naquela montanha junto de Flautulos. Você-Sabe-Quem virá para reclamar sua amizade com ele – apontou para Frôxo – e aí eu quero ver o que vocês irão fazer. Sua única esperança, meu jovem, é a destruição do Anel.
E então saiu furiosamente. Uskabba saiu logo atrás, mas ainda olhou para eles e deu de ombros:
– Às vezes acho que ele é só um velho maluco. Mas, por favor, pensem no que falamos. Até amanhã, no torneio, meus caros.
E, fazendo uma mesura, se retirou dali, deixando Frôxo e Blue com cara de aparvalhados. Barangorn, antes de se recolher, deu sua preciosa opinião:
– Às vêis Jubôfo teim razaum. Bua nuite.
Frôxo perguntou a Blue:
– E se ele estiver certo, Blue?
– Bah, isso tudo é bobagem! Esquece isso e se concentra pra amanhã, Frôxo. Eu vou dormir.
Frôxo tentou dormir naquela noite, mas não conseguiu. O pensamento de que Você-Sabe-Quem viria atrás dele contribuiu muito para sua insônia. O que ele faria? O que ele devia fazer? Saberemos apenas no próximo capítulo, onde finalmente ocorrerá a grande final do torneio. Sim, a final será realmente no próximo capítulo. Aguardem.