Contos da Terra Alta – Capítulo XIV

Já dissemos que a Terra Alta é um lugar fantástico, mas ainda não dissemos que ela é um berço incrível para as maiores lendas que a humanidade já criou. Muitos estudiosos já comprovaram que boa parte dos mitos que conhecemos hoje foram originados pela antiga sociedade autista que, por modéstia, nunca exigiu direitos de copyright.E entre os estudiosos, e fora deles também, é consenso que a Terra Alta possui dois heróis bastante venerados dentro de sua mitologia. O segundo mais louvado é Barbimedes, que, numa pequena enumeração de seus feitos mais incríveis estão a construção das sete maravilhas do mundo, a descoberta do fogo, a invenção da roda, a construção da arca de Noé, da Pequod e da Argos (ele era muito bom em construir barcos), o achado do santo graal, a descoberta da América, a ida do homem à lua, e é claro, os seus famosos 13 trabalhos. Bem, não tão famosos, já que na versão grega são apenas 12, e estes são feitos por Hércules. Mas historiadores garantem que o 13º trabalho existe sim, e foi a incrível saga de Barbimedes para acabar com todo o estoque de hidromel de um grande rei, bebendo barril por barril para que o seu amigo monarca não sucumbisse ao alcoolismo de que era vítima (mais histórias sobre Barbimedes podem ser encontradas no incrível Guia do Mochileiro da Terra Alta, peça já o seu!).

Contudo, o primeiríssimo herói das lendas autistas é o venerável Manoé. Seu único feito foi ser o único jogador de dominó autista a conseguir realizar a mais incrível jogada: a Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. De acordo com a lenda, essa jogada, realizada no torneio em duplas, consiste em alguém ganhar sozinho, fazendo todos da mesa passar suas rodadas, encerrando com uma quadrada*. Isso tudo sem ao menos ver suas próprias peças. Muitos dizem que é impossível, e que somente um grandessíssimo sortudo poderia realizar tal proeza. Mas os integrantes da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6 garantem que Manoé era um profeta, e que somente profetas do Grande 1ao6 podem realizar a santa jogada. A verdade é que o mito desse herói tem uma força tão grande que passou a ser o ano 0 do calendário autista. Já o torneio que ele ganhou passou a ser o campeonato número 0, não porque Manoé participou dele, mas sim porque os organizadores já haviam perdido a conta de quantos torneios foram realizados.

***

Frôxo estava nervoso, como sempre nestes últimos dias. Também não era para menos: todos os olhares do mundo autista estavam voltados para ele. Naquela manhã mesmo recebera convites para fazer comerciais, assinar um contrato para um filme, escrever uma autobiografia e ser um alto sacerdote da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6. Claro que havia motivos menores para seu costumeiro nervosismo, como por exemplo, a possibilidade de Você-Sabe-Quem estar atrás dele e de descobrirem a trapaça que Blue fez com os dois bêbados. Sem falar do Anel Alheio.

Suas olheiras pela falta de sono estavam bem visíveis. Dentro do vestiário, ouvia os abafados gritos da multidão ensandecida. Imaginava de que modo acabaria morto naquele dia. Blue olhou para ele e tentou animá-lo:

- Qué isso rapaz! Que cara é essa? Só falta mais um jogo. Ganhamos esse e já era!

Frôxo fitava o horizonte, com o olhar torpe de quem já contemplava o além-túmulo. Blue segurou seus ombros, encarou bem nos seus olhos e disse:

- Escuta aqui, eu odeio admitir isso, mas lá vai: você é o gênio desta dupla. Você nos trouxe sozinho até aqui. Se você não jogar do jeito que fez até agora, não vamos ganhar. Por isso eu preciso de você aqui, agora. Entendeu?

Frôxo, admirado pela declaração de Blue, perguntou com uma voz sumida e emocionada:

- Pôxa Blue, é sério?

- Claro que não, ô paspalho! Você só está na dupla porque Barangorn não gosta de dominó e preferiu ficar lá no hotel, dormindo. Mas façamos de conta que você é importante e vamos lá fora terminar o jogo. Ok?

Frôxo engoliu em seco. Minutos depois ele se viu na quadra, sob os olhares e aplausos calorosos da multidão. Ele nem sequer prestou atenção quando Jubolf e Uskabba entraram e o locutor anunciou as duas duplas. Sentia seu estômago se revirar.

- Frôxo!

Blue deu-lhe um tapa na nuca e mandou ele sentar-se no seu lugar. A multidão delirava, entoando seus gritos para o grande Zé Pequeno. A final estava para começar.

***

No camarote mais caro do estádio, Mestre dos Magos bebericava o drink mais caro do cardápio e aguardava pacientemente por notícias do seu assistente. Ele não conseguira criar nenhum plano bom o suficiente para tomar o troféu para si e estava dependendo exclusivamente das informações que o inútil ficara encarregado de encontrar.

Quando já imaginava qual maldição iria lançar no infeliz, eis que seu assistente entra de súbito no camarote:

- Consegui, senhor!!

- Conseguiu o quê, centopéia bípede?

- As informações que o senhor precisava. Estes dois Zés que estão na final não passam de impostores. A dupla real está até agora na taverna da praça, bebendo sem parar.

- Era tudo o que precisava. Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!

- Há há há há!!

- Do que está rindo, mariposa besuntada?

- Nada, meu senhor. Estava apenas o acompanhando.

- Ah, fora daqui, sua hiena mórbida!!

***

O juiz acabara de explicar as regras e mandara iniciar a partida. Todos os jogadores viraram suas peças, para conferir se tinham a peça inicial, a dupla de seis. Menos Frôxo, é claro. De tão nervoso que estava, pegou uma peça qualquer e colocou no centro da mesa.

- Que diabos está fazendo, imbecil? – gritou-lhe Blue.

Mas era tarde demais. O juiz sentenciou que a peça fosse virada e que, se não fosse a correta, penalizaria Frôxo pela jogada. Blue, já irritado, virou a peça e, para a surpresa de todos, era a dupla de seis. Não fosse o suficiente, Jubolf, Blue e Uskabba passaram sua vez, já que não tinham nenhuma peça para jogar.

- Oh!!! – Gritou toda a multidão, maravilhada. Frôxo havia começado, sem querer, uma Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada.

Blue não estava gostando daquela idéia. Era verdade que Frôxo tinha sido abençoado com uma sorte fora do normal desde que começara o torneio, mas tentar uma jogada como aquela era insanidade. Ele gritou:

- Frôxo, idiota! Vira as malditas peças! Olha teu jogo!

Mas, logo em seguida, o juiz, que tinha uma voz bem grave e intimidante, ordenou:

- Sua vez! Joga!

Frôxo obedeceu instantaneamente, por puro instinto. Pegou novamente uma peça qualquer e colocou na mesa. Dessa vez Jubolf a virou e nova surpresa: a jogada foi legítima, e mais uma vez os três passaram seu turno.

E esta cena se repetiu por mais três vezes. Todo o estádio estava em pleno silêncio. Era um momento incrível, único, histórico e para muitos, até mesmo sagrado. Nunca ninguém chegara tão longe em tentar repetir a proeza do lendário Manoé. Frôxo já tinha gravado seu nome na história da Terra Alta. Bem, não exatamente seu nome, mas de qualquer forma, ele já se igualava aos maiores heróis daquele mundo.

- Q-Que aconteceu?? Eu joguei errado? Porque vocês não jogam? – perguntou Frôxo, alarmado.

- JOGA! – gritou o juiz, empolgadíssimo com o jogo.

Frôxo, com o susto, soltou sua última peça, que ainda caiu com sua face virada. Então o juiz, lentamente, começou a virá-la. Ninguém sequer respirava neste momento.

- QUADRADA! É UMA QUADRADA!!

Todos foram ao delírio. Zé Pequeno, integrante prodígio da dupla Zé & Zé, acabava de ganhar sozinho o torneio anual de dominó autista. E a vitória veio com uma incrível Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. Ele seria lembrado por várias e várias gerações, depois daquele feito.

Frôxo não entendia o que estava acontecendo. Jubolf e Uskabba o ergueram, e o conduziram para o podium, já armado ali perto. Blue estava levemente irritado. Todos no estádio gritavam freneticamente seu nome, quer dizer, o nome de Zé Pequeno. O locutor falava algo sobre uma jogada impossível, histórica, lendária e etc.

Logo depois ele se viu no podium sozinho, com uma coroa de louro na cabeça e um enorme troféu em mãos. Era como se a profecia do mago estivesse se cumprindo, mas totalmente ao inverso. Mas Frôxo não pôde aproveitar sua glória por muito tempo. Enquanto dava sua característica série de risos nervosos para a multidão, eis que uma voz sobressai dentre as outras:

- Guardas!! Prendam este homem! Ele é um farsante!

Todos se viram para encarar o blasfemador. Era nada mais, nada menos que o próprio Mestre dos Magos. Ninguém ousaria contestar uma ordem sua. Frôxo estava então em uma bela enrascada. Como iria se livrar? Contaremos no próximo capítulo, é claro!

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* Quadrada: significa jogar sua última peça, com os dois valores idênticos, e este mesmo valor se repetir nas duas pontas do jogo. Exemplo: as pontas do jogo possuem ambas o número 2, e a última peça que você joga é a 2×2.

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