Contos da Terra Alta – Capítulo XIV

Março 21, 2007

Já dissemos que a Terra Alta é um lugar fantástico, mas ainda não dissemos que ela é um berço incrível para as maiores lendas que a humanidade já criou. Muitos estudiosos já comprovaram que boa parte dos mitos que conhecemos hoje foram originados pela antiga sociedade autista que, por modéstia, nunca exigiu direitos de copyright.E entre os estudiosos, e fora deles também, é consenso que a Terra Alta possui dois heróis bastante venerados dentro de sua mitologia. O segundo mais louvado é Barbimedes, que, numa pequena enumeração de seus feitos mais incríveis estão a construção das sete maravilhas do mundo, a descoberta do fogo, a invenção da roda, a construção da arca de Noé, da Pequod e da Argos (ele era muito bom em construir barcos), o achado do santo graal, a descoberta da América, a ida do homem à lua, e é claro, os seus famosos 13 trabalhos. Bem, não tão famosos, já que na versão grega são apenas 12, e estes são feitos por Hércules. Mas historiadores garantem que o 13º trabalho existe sim, e foi a incrível saga de Barbimedes para acabar com todo o estoque de hidromel de um grande rei, bebendo barril por barril para que o seu amigo monarca não sucumbisse ao alcoolismo de que era vítima (mais histórias sobre Barbimedes podem ser encontradas no incrível Guia do Mochileiro da Terra Alta, peça já o seu!).

Contudo, o primeiríssimo herói das lendas autistas é o venerável Manoé. Seu único feito foi ser o único jogador de dominó autista a conseguir realizar a mais incrível jogada: a Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. De acordo com a lenda, essa jogada, realizada no torneio em duplas, consiste em alguém ganhar sozinho, fazendo todos da mesa passar suas rodadas, encerrando com uma quadrada*. Isso tudo sem ao menos ver suas próprias peças. Muitos dizem que é impossível, e que somente um grandessíssimo sortudo poderia realizar tal proeza. Mas os integrantes da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6 garantem que Manoé era um profeta, e que somente profetas do Grande 1ao6 podem realizar a santa jogada. A verdade é que o mito desse herói tem uma força tão grande que passou a ser o ano 0 do calendário autista. Já o torneio que ele ganhou passou a ser o campeonato número 0, não porque Manoé participou dele, mas sim porque os organizadores já haviam perdido a conta de quantos torneios foram realizados.

***

Frôxo estava nervoso, como sempre nestes últimos dias. Também não era para menos: todos os olhares do mundo autista estavam voltados para ele. Naquela manhã mesmo recebera convites para fazer comerciais, assinar um contrato para um filme, escrever uma autobiografia e ser um alto sacerdote da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6. Claro que havia motivos menores para seu costumeiro nervosismo, como por exemplo, a possibilidade de Você-Sabe-Quem estar atrás dele e de descobrirem a trapaça que Blue fez com os dois bêbados. Sem falar do Anel Alheio.

Suas olheiras pela falta de sono estavam bem visíveis. Dentro do vestiário, ouvia os abafados gritos da multidão ensandecida. Imaginava de que modo acabaria morto naquele dia. Blue olhou para ele e tentou animá-lo:

- Qué isso rapaz! Que cara é essa? Só falta mais um jogo. Ganhamos esse e já era!

Frôxo fitava o horizonte, com o olhar torpe de quem já contemplava o além-túmulo. Blue segurou seus ombros, encarou bem nos seus olhos e disse:

- Escuta aqui, eu odeio admitir isso, mas lá vai: você é o gênio desta dupla. Você nos trouxe sozinho até aqui. Se você não jogar do jeito que fez até agora, não vamos ganhar. Por isso eu preciso de você aqui, agora. Entendeu?

Frôxo, admirado pela declaração de Blue, perguntou com uma voz sumida e emocionada:

- Pôxa Blue, é sério?

- Claro que não, ô paspalho! Você só está na dupla porque Barangorn não gosta de dominó e preferiu ficar lá no hotel, dormindo. Mas façamos de conta que você é importante e vamos lá fora terminar o jogo. Ok?

Frôxo engoliu em seco. Minutos depois ele se viu na quadra, sob os olhares e aplausos calorosos da multidão. Ele nem sequer prestou atenção quando Jubolf e Uskabba entraram e o locutor anunciou as duas duplas. Sentia seu estômago se revirar.

- Frôxo!

Blue deu-lhe um tapa na nuca e mandou ele sentar-se no seu lugar. A multidão delirava, entoando seus gritos para o grande Zé Pequeno. A final estava para começar.

***

No camarote mais caro do estádio, Mestre dos Magos bebericava o drink mais caro do cardápio e aguardava pacientemente por notícias do seu assistente. Ele não conseguira criar nenhum plano bom o suficiente para tomar o troféu para si e estava dependendo exclusivamente das informações que o inútil ficara encarregado de encontrar.

Quando já imaginava qual maldição iria lançar no infeliz, eis que seu assistente entra de súbito no camarote:

- Consegui, senhor!!

- Conseguiu o quê, centopéia bípede?

- As informações que o senhor precisava. Estes dois Zés que estão na final não passam de impostores. A dupla real está até agora na taverna da praça, bebendo sem parar.

- Era tudo o que precisava. Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!

- Há há há há!!

- Do que está rindo, mariposa besuntada?

- Nada, meu senhor. Estava apenas o acompanhando.

- Ah, fora daqui, sua hiena mórbida!!

***

O juiz acabara de explicar as regras e mandara iniciar a partida. Todos os jogadores viraram suas peças, para conferir se tinham a peça inicial, a dupla de seis. Menos Frôxo, é claro. De tão nervoso que estava, pegou uma peça qualquer e colocou no centro da mesa.

- Que diabos está fazendo, imbecil? – gritou-lhe Blue.

Mas era tarde demais. O juiz sentenciou que a peça fosse virada e que, se não fosse a correta, penalizaria Frôxo pela jogada. Blue, já irritado, virou a peça e, para a surpresa de todos, era a dupla de seis. Não fosse o suficiente, Jubolf, Blue e Uskabba passaram sua vez, já que não tinham nenhuma peça para jogar.

- Oh!!! – Gritou toda a multidão, maravilhada. Frôxo havia começado, sem querer, uma Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada.

Blue não estava gostando daquela idéia. Era verdade que Frôxo tinha sido abençoado com uma sorte fora do normal desde que começara o torneio, mas tentar uma jogada como aquela era insanidade. Ele gritou:

- Frôxo, idiota! Vira as malditas peças! Olha teu jogo!

Mas, logo em seguida, o juiz, que tinha uma voz bem grave e intimidante, ordenou:

- Sua vez! Joga!

Frôxo obedeceu instantaneamente, por puro instinto. Pegou novamente uma peça qualquer e colocou na mesa. Dessa vez Jubolf a virou e nova surpresa: a jogada foi legítima, e mais uma vez os três passaram seu turno.

E esta cena se repetiu por mais três vezes. Todo o estádio estava em pleno silêncio. Era um momento incrível, único, histórico e para muitos, até mesmo sagrado. Nunca ninguém chegara tão longe em tentar repetir a proeza do lendário Manoé. Frôxo já tinha gravado seu nome na história da Terra Alta. Bem, não exatamente seu nome, mas de qualquer forma, ele já se igualava aos maiores heróis daquele mundo.

- Q-Que aconteceu?? Eu joguei errado? Porque vocês não jogam? – perguntou Frôxo, alarmado.

- JOGA! – gritou o juiz, empolgadíssimo com o jogo.

Frôxo, com o susto, soltou sua última peça, que ainda caiu com sua face virada. Então o juiz, lentamente, começou a virá-la. Ninguém sequer respirava neste momento.

- QUADRADA! É UMA QUADRADA!!

Todos foram ao delírio. Zé Pequeno, integrante prodígio da dupla Zé & Zé, acabava de ganhar sozinho o torneio anual de dominó autista. E a vitória veio com uma incrível Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. Ele seria lembrado por várias e várias gerações, depois daquele feito.

Frôxo não entendia o que estava acontecendo. Jubolf e Uskabba o ergueram, e o conduziram para o podium, já armado ali perto. Blue estava levemente irritado. Todos no estádio gritavam freneticamente seu nome, quer dizer, o nome de Zé Pequeno. O locutor falava algo sobre uma jogada impossível, histórica, lendária e etc.

Logo depois ele se viu no podium sozinho, com uma coroa de louro na cabeça e um enorme troféu em mãos. Era como se a profecia do mago estivesse se cumprindo, mas totalmente ao inverso. Mas Frôxo não pôde aproveitar sua glória por muito tempo. Enquanto dava sua característica série de risos nervosos para a multidão, eis que uma voz sobressai dentre as outras:

- Guardas!! Prendam este homem! Ele é um farsante!

Todos se viram para encarar o blasfemador. Era nada mais, nada menos que o próprio Mestre dos Magos. Ninguém ousaria contestar uma ordem sua. Frôxo estava então em uma bela enrascada. Como iria se livrar? Contaremos no próximo capítulo, é claro!

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* Quadrada: significa jogar sua última peça, com os dois valores idênticos, e este mesmo valor se repetir nas duas pontas do jogo. Exemplo: as pontas do jogo possuem ambas o número 2, e a última peça que você joga é a 2×2.


Contos da Terra Alta – Capítulo XIII

Outubro 5, 2006

– E se não fosse minha jogada, Frôxo não teria encaixado aquela quadrada!

Blue contava todos os lances do dia para Barangorn, que tinha decidido passar todo o seu tempo no conforto do hotel. É claro que o rato alterava um pouquinho a história a seu favor, mas Barangorn, assim como todo mundo, sabia que ele era na verdade um peso morto na dupla.


– I aminhã é a final?


– É sim. E a partida está praticamente ganha. Veja as possibilidades, Bara (Posso te chamar assim, né meu chapa?). Torneios e mais torneios. Prêmios e mais prêmios. Mulheres. Ah sim, cederei algumas entrevistas e contratarei uma equipe de marketing. Comerciais e quem sabe uma carreira no cinema…


No seu delírio, Blue já abraçara Barangorn e passava a mão pelo horizonte, como se estivesse lendo seu nome em um letreiro imaginário. Barangorn achou melhor mudar o assunto:


– Homi, i ondi tá Frôxu?


– Ah, aquele babaca tá no bar do hotel se embriagando com leite. O coitado quase não agüentou a pressão destes últimos dias. Mas daqui a pouco já volta, mandei ele se segurar na bebida, afinal amanhã é o meu dia.


Neste exato momento, alguém bateu à porta. Blue completou, enquanto ia abrindo:


– Não disse? Só espero que ele tenha me escutado e…


Blue se assustou com a cara sorridente de Uskabba e o vulto de Moisés com um chapéu ridiculamente pontudo que estava logo atrás dele. Uskabba então falou da sua maneira irritantemente tranqüila:


– Olá, meu jovem. Podemos entrar?


– Hã? Quê… O quê é que vocês estão fazendo aqui?


– Só queremos conversar um pouco.


– Conversar? Já sei, vocês vieram me comprar!


– De maneira alguma meu jovem. Viemos deixar-lhe a par de um grave problema que poderá afetar a todos nós se não nos unirmos e…


– Rá rá rá!! Essa é boa! Ta me achando com cara de idiota? Não adianta vir com conversa mole. Eu sei! Vocês querem ganhar de qualquer jeito e estão tremendo de medo da minha genialidade no dominó. Mas não adianta, porque…


Nesse momento, Blue teve um leve vislumbre do lendário poder de persuasão e educação que Jubolf, o vulto de Moisés que ali estava, possuía. Em uma lenda bastante difundida, Jubolf, alguns séculos antes de ingressar no campo da magia, teria sido um mero professor de etiqueta e oratória na Torre de Guadalópez. Não havia nenhuma confirmação nos bancos de dados do RH da Torre, muito menos pelo próprio. Apenas a certeza que, por algumas demonstrações como a que Blue presenciava no momento, ele poderia ter sido o melhor professor de etiqueta e oratória já visto:


– CALA ESSA MALDITA BOCA E DEIXA A GENTE ENTRAR, RATO DOS INFERNOS! SENÃO VOU FRITAR O SEU RABO DE UMA MANEIRA QUE DEIXARÁ ZEUS COM INVEJA, ENTENDEU?


Blue não soube se foi a voz tonitruante do mago ou as faíscas elétricas que começaram a brotar do seu cajado que o persuadiu de uma maneira tão rápida. Ele apenas se viu convidando os dois a entrar e a sentarem-se no espaçoso sofá da sala, enquanto ia preparar um café. Barangorn, que já conhecia os dois desde muito tempo, não ficou surpreso por vê-los e perguntou o que os trazia até ali. Afinal, revê-los era apenas sinal de que algo errado estava acontecendo.


- Não ainda acontecendo, adiantou Jubolf, mas na iminência de acontecer. Precisamos nos antepor aos eventos. O outro tolo está chegando, vamos esperá-lo para deixar tudo às claras.


Depois de alguns segundos, a porta se abre. Frôxo, ainda sem se dar conta da presença das visitas, entrou e perguntou:


– Blue, acaso você sabe o que é uma quadrada??


Só então, quando passou os olhos pela sala, viu o mago e o elfulera.


– Ah, olá… O que fazem aqui?


– Sente-se e escute com atenção – disse simplesmente Jubolf.


Quando todos estavam na sala confortavelmente sentados, o velho mago começou a contar a história:


– Há muito, muito tempo atrás, quando Você-Sabe-Quem andava livre pela Terra Alta, ele teve uma idéia maligna. Naqueles dias, o maldito era amigo de todos, até finalmente todos se darem conta do terrível engano que cometiam ao ofertar-lhe aquela amizade. Pouco a pouco os autistas cortaram suas relações com Você-Sabe-Quem. O último deles, porém, teve um destino infeliz. Quando o pobre autista disse ao Mentiroso que não queria mais sua amizade, Você-Sabe-Quem enlouqueceu. Matou-o com uma mentira terrível e roubou-lhe um anel dourado que ele trazia na mão esquerda.


“Pouco depois, ainda ensandecido, o maldito foi até a caverna de Mordor e proferiu uma mentira tão grande que, segundo diz a lenda, o vento recusou-se a levar para os quatro cantos do mundo. A mentira ainda ecoa naquela caverna, capaz de matar quem a escute. Nesse mesmo lugar, Você-Sabe-Quem lançou uma maldição naquele anel, uma maldição que obrigaria todos os autistas a serem seus amigos novamente. E, para confirmar sua intenção maligna, ele gravou os versos dessa maldição no Anel Alheio.”


Solenemente, Uskabba começou a recitar os versos da maldição:

“Um anel para todos me amar, Um anel para encontrá-los,
Um anel para a todos trazer e na minha amizade aprisioná-los
Na Caverna de Mordor onde as mentiras espreitam.”

Frôxo e Blue tremeram diante aquela citação terrível. Um trovão ecoou lá fora, fazendo Frôxo pular da poltrona.

– Rá rá rá! Eu adoro esse efeito! – falou Jubolf, sorrindo como uma criança que pregara uma peça.


– Foi você quem…


– Sim, mas me deixe continuar a história.


“Logo após isso, Você-Sabe-Quem conseguiu uma breve, mas massiva vitória. Ele realmente começou a conquistar a amizade de milhares de autistas. Foi preciso uma forte união entre magos, elfuleras e homens e uma grande guerra para que finalmente conseguíssemos parar o maldito. Em uma grandiosa batalha, o grande rei Baranbaragorn decepou o dedo que continha o anel, aniquilando os poderes de Você-Sabe-Quem… por um certo tempo. O grande rei (sim, seu estúpido, era o tetra-penta-avô de Barangorn, não me interrompa mais!) reclamou para si o Anel, e ao invés de destruí-lo para todo o sempre, decidiu guardá-lo.”


Blue fez menção em se levantar:


– Espera aí que vou beber água. Não continua a história sem mim!


– Sossegue esse rabo nesta cadeira, se não quiser que um daqueles trovões exploda sua maldita cabeça.


“Não tardou para que o grande rei começasse a contar mentiras. E de mentiras partiu para a obsessão por amizades. E então iniciou-se outra guerra, e mais outra e mais outra, sempre sob a influência do Anel. Até que a história se perde sobre o destino final do Anel. Talvez ele tenha ficado perdido por um bom tempo, mas infelizmente, só até agora.”


– O que você quer dizer? – perguntou Frôxo, de olhos esbugalhados.


– O que eu quero dizer é que o Anel voltou! Talvez estivesse tirando férias, sei lá. O que importa é que ele voltou, e com certeza reclamará pelo seu verdadeiro dono.


– O carinha que Você-Sabe-Quem matou?


– Não, seu demente! Você-Sabe-Quem em pessoa!


– Mas o anel não era do carinha?


– Não! Quer dizer, era! Ora, cale-se! O que finalmente quero dizer é que a merda do Anel está atachado ao troféu deste maldito torneio. E é por isso que precisamos ganhar o torneio, caso contrário o Anel cairá em mão erradas.


– Rá! Finalmente! – atalhou Blue – A máscara finalmente caiu! A história é muito boa, mas você realmente acha que iríamos acreditar? Você só quer levar o torneio no bico, só isso!


– Vocês podem ganhar o torneio, só queremos o troféu. – explicou Uskabba.


– Nem uma coisa nem outra! O troféu será nosso! Se quiser ele, que ganhe a partida!


Jubolf levantou-se. Sabia que aquela discussão seria inútil. Caminhou até a porta e disse:


– Você está cometendo um grave erro, pequeno rato. Nós não somos seus inimigos. E “ele” não morreu soterrado naquela montanha junto de Flautulos. Você-Sabe-Quem virá para reclamar sua amizade com ele – apontou para Frôxo – e aí eu quero ver o que vocês irão fazer. Sua única esperança, meu jovem, é a destruição do Anel.


E então saiu furiosamente. Uskabba saiu logo atrás, mas ainda olhou para eles e deu de ombros:


– Às vezes acho que ele é só um velho maluco. Mas, por favor, pensem no que falamos. Até amanhã, no torneio, meus caros.


E, fazendo uma mesura, se retirou dali, deixando Frôxo e Blue com cara de aparvalhados. Barangorn, antes de se recolher, deu sua preciosa opinião:


– Às vêis Jubôfo teim razaum. Bua nuite.


Frôxo perguntou a Blue:


– E se ele estiver certo, Blue?


– Bah, isso tudo é bobagem! Esquece isso e se concentra pra amanhã, Frôxo. Eu vou dormir.


Frôxo tentou dormir naquela noite, mas não conseguiu. O pensamento de que Você-Sabe-Quem viria atrás dele contribuiu muito para sua insônia. O que ele faria? O que ele devia fazer? Saberemos apenas no próximo capítulo, onde finalmente ocorrerá a grande final do torneio. Sim, a final será realmente no próximo capítulo. Aguardem.


Contos da Terra Alta – Capítulo XII

Agosto 2, 2006

Finalmente, após algumas horas de atraso, começou o torneio. Um telão armado próximo das arquibancadas, equipado com os últimos recursos da magia eletrônica, mostrava cada lance emocionante das partidas que se desenrolavam no estádio. É claro que os torcedores, como bons autistas, também se valiam da fofoquiromancia para saber exatamente o que estava acontecendo. Frôxo, como de costume, estava nervoso, rindo sem parar. Ele e Blue fariam a ultima partida daquela fase, que já era uma eliminatória. Após revisar as lições que Uskabba tinha lhe passado sobre o jogo, ele descobriu que esquecera todas. Bastava agora apelar para a sorte. – É só jogar as peças com o número de pontos iguais aos da mesa, Frôxo. Não tem erro – explicava Blue. – Certo. Número igual, joga a peça. Número igual, joga a peça. Número igual… – e assim Frôxo seguiu para seu lugar à mesa.

A primeira partida era contra uma dupla inexpressiva. Blue estava confiante. Jogava aquilo desde garoto, praticamente conhecia o segredo das peças. Era bem verdade que Frôxo nunca havia jogado, mas esse ínfimo detalhe não iria lhe atrapalhar.


Com tudo pronto, deram início à partida. Depois de duas, três rodadas, não demorou muito para Blue perceber o quanto se enganara. Frôxo parecia jogar a favor dos adversários. Ele tremia e mal conseguia segurar suas peças. Quando jogava, sempre prejudicava Blue. Desse modo, a partida já estava quase no fim, e todos estavam certos que a dupla Zé & Zé sairiam logo no começo do torneio. Até que aconteceu um milagre.


Frôxo, pelo jeito que estava jogando, sabia que a profecia do mago iria acontecer palavra por palavra, e não o inverso como Uskabba insistiu em lhe fazer acreditar. Esse pensamento somente o deixou mais nervoso, e por conseqüência, sua tremedeira aumentou. Isso fez uma das peças em sua mão cair, com a face dos números para cima. O juiz, que estava de olho no lance, setenciou:


– Você é obrigado a jogar esta peça agora.


– Mas eu ia jogar outra…


Blue mal acreditou quando viu a peça. Era o número que precisava para retomar a vantagem. Quase não se conteve:


– Joga Frôxo! Joga! Pelo amor de Deus! Obedeça ao juiz!


O juiz acabou mostrando um cartão amarelo para Blue, pois este pediu por uma peça. Mas ainda assim não voltou atrás e exigiu que Frôxo jogasse a peça que tinha caído na mesa. Frôxo, sem mais o que fazer, obedeceu. Com essa jogada eles viraram o jogo milagrosamente.


A multidão foi ao delírio. Todo mundo aplaudiu aquela vitória incrível. Daquele momento em diante a dupla Zé & Zé começou a liderar o torneio e virou a preferida da torcida. Apelidaram Frôxo de Zé Pequeno (já que ele era baixinho) e Blue de Zé Gabiru. Começaram a surgir histórias de como o tal Zé Pequeno iniciou o torneio perdendo, para que, na hora da virada, deixasse teatralmente cair sua peça vitoriosa e liquidasse a primeira dupla.


Frôxo mal podia acreditar. Qualquer peça que jogasse, mesmo sem entender nada da partida, acabava criando uma jogada incrível. Blue já estava irritado com um boato que surgia sobre Zé Pequeno ser o cérebro da dupla. Mas o fato é que, depois de dois dias de partidas, estavam na final do torneio. E a dupla que iriam enfrentar era, nada mais, nada menos que Jubolf & Uskabba.


Havia somente uma pessoa que não estava satisfeita com o desenrolar do torneio, além das duplas derrotadas, é claro. Mestre dos Magos, dentro da sua habitual suíte mais cara, do hotel mais caro da Capital da Praça, fumava seu habitual charuto mais caro e dava sua habitual bronca no seu assistente:


– Está vendo seu imbecil? Olha só a desgraça que me aconteceu! Agora como vou conseguir o um Anel, sua foca vesga?


– Não se preocupe senhor, eu darei um jeito de convencer a dupla vencedora…


– Você dar um jeito? Você não dá jeito nem em você mesmo, seu ornitorrinco alado! Descubra o que puder sobre esses Zés. Tenho certeza de que eles irão ganhar o torneio. Eles não são iniciantes, como você, seu demente iletrado, me fez acreditar. Eu quero algo sobre eles que possa usar ao meu favor, entendeu?


– Sim, senhor.


– Ótimo.


– …


– O que está esperando, sua morsa leprosa?


– Nada, senhor. Estou partindo imediatamente.


Mestre dos Magos já não lhe dava mais atenção. Estava tramando planos que iam do B ao Z, caso seu assistente não conseguisse alguma informação importante. E principalmente, sonhava com o poder do Anel Alheio em suas mãos:


– Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!


E assim, com essa risada maligna, terminamos este capítulo. Aguardem o próximo, onde finalmente o Torneio Anual de Dominó Autista elegerá sua dupla vitoriosa.


Contos da Terra Alta – Capítulo XI

Abril 29, 2006

Era dia de festa na Capital da Praça, pois finalmente havia começado o famoso campeonato de dominó autista. Pessoas vindas dos quatro cantos da Terra Alta estavam presentes na cidade, esquentando o movimento das tavernas e estalagens. O Estádio Central, onde se desenrolava o torneio, estava completamente lotado e colorido. A algazarra da torcida ensurdecia qualquer um ali perto. A única voz que se fazia ouvir, graças à ajuda de 400 potentes auto-falantes, era a do famoso locutor de dominó, Faisão Bueno: - Olááááá amigos da Rede Mordor! Estamos aqui mais uma vez para acompanhar maaaais um emocionaaaaaaaante Campeonato Anual de Dominóóóó Autista! E parece que teremos surpresas para este ano! Novas duplas se inscreveram e… Blue estava ansioso demais para prestar atenção naquele falatório. Neste momento, ele e Frôxo estavam em pé no meio do estádio, junto com os demais atletas do dominó. Blue podia sentir os olhares pairando sobre ele. Mesmo quando Faisão anunciava alguma dupla mais importante (todas eram), o rato podia escutar seu nome nos gritos da torcida. Quer dizer, seu nome não, o nome dos coitados que tiveram sua vaga roubada por ele. Mas que importa? Seria famoso. Quem sabe poderia abandonar o plano ridículo de visitar a Preaca. Já Frôxo apenas imaginava, dentro da sua costumeira crise de risos, até onde aquela farsa iria. -… e a última dupla inscrita, senhoras e senhores! Quero uma salva de palmas para Zé e Zé! Só alguns murmúrios foram a resposta da torcida. Podia-se escutar uma tossida aqui ou acolá, mas só isso. Blue agitava a mão freneticamente, como se estivesse respondendo a alguma recepção calorosa o público. Frôxo olhava desconfiado, certo de que tinham sido descobertos. Depois deste momento constrangedor, Faisão prosseguiu anunciando as chaves do grande campeonato.
Assim que se acalmou mais, Frôxo viu um conhecido entre os participantes do torneio. Tentou chamar a atenção de Blue, que estava em um estranho estado de transe, preparando-se para as partidas: - Ei Blue, Uskabba está aqui! - Para de falar errado, Frôxo. O certo é “os caras estão aqui”. - Você não entendeu! É Uskabba! - Frôxo, eu tenho que me concentrar para o jogo. Não é hora para lições de gramática. - Olha pra lá, idiota! Blue olhou para onde Frôxo apontou. Finalmente entendeu tudo: - Ah, mas por que você não disse antes? É Uskabba! Vá lá falar com ele Frôxo! - E-eu? - É, você. Veja se descobre alguma pista nova sobre o Gózzum. Eu, como você pode ver, estou ocupado me preparando para o torneio. Frôxo acabou concordando. Afinal, a única chance de reaver seu dinheiro era com a vitória deles no torneio. Como ele não entendia nada de dominó autista, esperava que Blue estivesse muito bem preparado. Então, para não atrapalhar Blue, ele foi conversar com Uskabba. Mal se aproximou, ele já foi logo acenando: - Olá jovem! Que surpresa encontra-lo aqui. Onde está aquele espirituoso rato? - Er, bem, ele está logo ali. - Vejo que entraram no torneio. Se bem que não foi de maneira muito “honesta”, não foi? A espinha de Frôxo gelou. Então ele sabia de tudo? Como descobriu? Frôxo apenas apressou-se em dizer: - Não foi culpa minha! - Calma, jovem, calma. Seu segredo está seguro comigo. Afinal está longe dos meus interesses em prejudicar alguém tão corajoso. - C-corajoso? - Claro que sim! Veja, enfrentar de uma só vez Flautulos e Você-Sabe-Quem é realmente uma incrível e corajosa empresa. Como é que ele sabia tanto? Frôxo, inocente como sempre, estava com esta dúvida na cabeça. Se ele conhecesse alguma coisa sobre os elfuleras, não estaria assim tão surpreso. - Como é que você sabe? - Sei de nada! - Mas… - Ora, deixe isso pra lá. Ainda pretendem ir até à Preaca? - Er… - Sim, eu sei que pretendem. Mudando de assunto, eu sei também que você não conhece nada sobre dominó. Então, enquanto o torneio não começa, vou explicar-lhe as regras deste nobre esporte. - Você lê mentes por acaso? Uskabba riu com gosto. O segredo de um elfulera nada tem a ver com ler mentes, mas sim em ter os contatos certos nos locais certos. - Não, meu jovem. Vamos até a minha mesa. Lá posso ensinar o básico. Chegando lá, Frôxo viu uma estranha figura. Era um velho, de barba enorme, usando um manto cinzento e um curioso chapéu pontudo. Em uma das mãos segurava um cajado. A outra segurava um manual de dominó autista. Estava, aparentemente, dormindo sentado à mesa. - Bem, Frôxo, este é o meu parceiro de dominó, o mago Jubolf. - Mago? - É, mago. Dizem que ele é muito poderoso mas – Uskabba aproximou-se do ouvido de Frôxo e continuou num sussurro– pra mim ele é só um velho maluco. Subitamente o velho acordou e gritou apontando para Frôxo: - FOI VOCÊ! EU VI! Frôxo estava com os nervos à flor da pele desde que entrara ilegalmente no campeonato. O susto que o velho lhe deu foi suficiente para fazê-lo cair aos seus pés, suplicando aos prantos: - Por favor, não foi minha culpa! A idéia foi de Blue! Não me prenda! Por favor! - Do que você está falando? Prender você por quê? Froxô se recompôs totalmente: - Então você não sabe? Desculpa, me enganei. Pensei que falava sobre… ah, não importa. Sobre o quê você falava? - Da visão que tive, lógico. - Visão? Que visão? - Você, meu jovem. Seus erros irão trazer-lhe sofrimento muito em breve. Não sairás vivo deste estádio. Despertarás a ira de muitos. Vi pedras e sangue em teu caminho. Cabô meu filho. Game over. Perda total. Desiste. Quer um conselho? Mate-se enquanto pode. E ao dizer estas edificantes palavras, Jubolf voltou ao seu imperturbável sono. Frôxo estava atônito. Mas Uskabba dava-lhe tapinhas nas costas, como se o velho houvesse profetizado a mais maravilhosa fortuna. Frôxo não entendeu: - Você escutou o que ele disse? - Escutei sim, e devo dizer, Jubolf nunca erra uma profecia. - Obrigado por me animar. - Calma meu jovem. Jubolf nunca erra uma profecia, porém ele profetiza o inverso do que vai acontecer. - Hein? - Vamos, deixe eu te ensinar as benditas regras. Você vai ver por si só. Apenas não comente nada com ele. Frôxo não se sentiu nem um pouco mais animado. Não acreditou no que Uskabba disse, e não conseguia enxergar uma maneira de sair dali. Restava apenas esperar por uma chance. Quem estaria certo? Uskabba ou Jubolf? Veremos no próximo capítulo.


Contos da Terra Alta – Capítulo X

Fevereiro 22, 2006

 

 

 

- Como assim não posso me inscrever? O campeonato ainda não começou! – Blue estava nervoso, tentando inutilmente convencer a moça que trabalhava na banca de inscrições. Frôxo estava com ele, achando aquilo tudo uma tremenda perda de tempo e dinheiro. Afinal, além de ficar responsável por pagar a taxa de inscrição, ainda estava bancando o hotel onde todos os três se hospedaram. E os hotéis, nesta época do ano, eram bem caros.- Já disse, senhor. As inscrições se encerraram ontem. Não posso fazer nada.

- Mas isto é um ultraje! Você não tem o direito de me impedir de participar no campeonato, ouviu? Eu…

- Blue, vamos embora, não adianta. A moça não tem culpa de nada.

Por fim, Blue desistiu. Xingava tudo e todos. Frôxo, que estava aliviado por não ter que gastar mais dinheiro, sugeriu que fossem para uma taverna ali perto, beber alguma coisa e esfriar um pouco as idéias. Blue, de má vontade, concordou.

A taverna esta bastante movimentada. Barulhos de garrafas sendo quebradas e homens gritando e cantando podiam ser ouvidos ao longe. O lugar fedia a suor e cerveja. Blue e Frôxo conseguiram encontrar uma mesa que estava sendo ocupada por um bêbado que roncava em alto e bom som. Uma garçonete entregou-lhes duas canecas de cerveja quente, sem ao menos perguntar se queriam ou não. Os dois se entreolharam e acharam que, para suas integridades físicas, o melhor era beber.

Pouco tempo depois, sentaram-se, na mesa vizinha à deles, um homem alto e magro e seu comparsa, um velhote que tentava à todo custo fazer uma ligação em um celular imaginário. Já estavam completamente bêbados e comemoravam a sorte de terem feito a inscrição no campeonato de dominó a tempo. Blue ficou de olho nos dois.

- Isso aê Zé* (hic)! Esse campeonato ta no papo (hic)!

- Nóis treinou o ano inteirinho (hic). Nóis não têm como perder (hic)! Viva a nóis!!!

Os dois pegaram um pedaço de papel e agitaram ao alto. Blue, com muito esforço, percebeu que se tratava do comprovante de inscrição do campeonato. Subitamente teve uma idéia:

- Frôxo, me dá uma moeda de ouro.

- Quê? Vai trabalhar, vagabundo!

- Rápido! Eu tenho um plano.

Frôxo deu-lhe uma moeda. Blue levantou-se, pegou duas garrafas e, sem cerimônia, quebrou-as nas cabeças dos dois amigos. Um ainda gritou “DJABÉISSU???”, mas os dois desmaiaram na mesma hora. Todos pararam e olharam para Blue, surpresos. Um silêncio desconfortável surgiu. Sem saber o que fazer, Blue gritou:

- Viva a cerveja!!!!

- VIVA!!!!!

Todos gritaram em uníssono e recomeçaram a se divertir, como se nada tivesse acontecido. Satisfeito, Blue pegou os comprovantes dos dois bêbados e falou com o dono do lugar:

- Taverneiro, eu quero que aqueles homens ali passem o resto do ano aqui, bêbados. – ao dizer isso, entregou-lhe a moeda de ouro. Chamou Frôxo e saiu dali o mais rápido que pôde.

- Rá! Ninguém podia contar com minha esperteza! Estamos no campeonato, Frôxo!

- Você quer que eu finja ser um daqueles dois? Isso é desleal, desonroso, e o mais importante, dá cadeia!

- Que é isso, meu chapa! Pense nisso como uma espécie de substituição dentro de uma equipe. Veja, aqueles dois não tinham a menor chance. Agora, eles vão ficar lá dentro, bebendo felizes enquanto ganhamos o campeonato para eles. Todo mundo lucra, não percebe?

- Eu só vou aceitar fazer isso porque senão nunca mais vejo meu dinheiro. Mas se formos pegos…

- Não seremos pegos, confie em mim. O campeonato desse ano será de Zé e Zé. Já vejo nosso nome no cenário mundial de dominó!

- Não é nosso nome, Blue.

- Lembra daquela história de equipe? Então. É como se fosse nosso nome.

E assim os dois passaram o resto da noite. Blue sonhando com o estrelato de um jogador profissional de dominó e Frôxo com a sensação ruim de que iriam se dar mal.

***

Mestre dos Magos estava descansando confortavelmente na suíte mais cara do hotel mais luxuoso da Capital da Praça. Fumava os charutos mais caros de toda a Terra Alta e espreguiçava-se na cadeira feita pelo artesão mais famoso (e careiro) do mundo conhecido. A vida não poderia ser melhor. Mais ele nunca estava satisfeito. Precisava por suas mãos no Anel Alheio. Poderia fazer isso da maneira mais fácil, apenas conversando com os organizadores, afinal tinha influência o bastante pra isso. Mas que graça teria? O sabor da conquista só melhora com a dificuldade.

Enquanto pensava sobre o que iria mais conquistar assim que tivesse o Anel, um esbaforido rapaz entra nos seus aposentos.

- E então, fez o que pedi, seu paquiderme imbecil e fanho? – perguntou Mestre dos Magos para seu fiel capacho.

- Sim senhor. Subornei todas as duplas, como o senhor exigiu. Eles ficam com o prêmio, mas lhe entregarão o troféu assim que puderem.

- Gastei muito dinheiro nisto. Você tem mesmo certeza de que foram todas, besta acéfala e anêmica? – o olhar inquisitivo do Mestre dos Magos assustou o pobre jovem, que achou melhor contar a verdade:

- Bem, apenas duas duplas ficaram de fora, mas penso que isto não seja problema, senhor.

- Desde quando é pago para pensar, sua cópia mal feita de uma ameba lobotomizada? Quais foram as duplas que não foram subornadas, inútil asno sem dentes?

- Bem, uma dupla de bêbados, chamada de Zé e Zé.

- Esta não me causará problemas. Qual a outra, pedaço de jaca infeliz?

O jovem vacilou em responder, e Mestre dos Magos irritou-se:

- Fale, seu monte de fezes albinas!

- Uskabba e um mago… chamado Jubolf.

- O QUÊ? Aquele elfulera* e aquele mago senil? O que eles pretendem??

- Não sei, senhor.

- Claro que não sabe. O que uma girafa sem pescoço como você poderia saber? Saia daqui, agora mesmo! Antes que eu transforme você em um cachorro sem braços!

O rapaz saiu correndo. Mestre dos Magos agora estava preocupado. Talvez aqueles dois quisessem apenas se divertir, ou talvez não. De qualquer maneira, ficaria de olho.

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* Zé e Zé: Se você ficou surpreso com a reaparição destes dois personagens, e achou que isto não fez nenhum sentido, já que eles morreram em um capítulo anterior, saiba que está completamente certo. Trata-se de uma moderna técnica de narrativa de humor, o Looping de Personagens Inúteis (LPI). Esta técnica consiste em usar personagens ridículos e os fazer aparecerem em diversas ocasiões sem nenhuma relação entre si, causando assim um efeito cômico. Preparam-se, pois este efeito será usado à exaustão aqui.

*Elfulera: Segundo o “Guia do Mochileiro das Terras Altas” elfulera é “a denominação para uma das muitas raças míticas que habitam a Terra Alta. Sempre misteriosos, eles têm a incrível habilidade de descobrir coisas sobre você antes que você perceba”.

 


Contos da Terra Alta – Capítulo IX

Janeiro 6, 2006

- Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!! Era exatamente assim sua risada enquanto tramava algo muito, muito ruim. Soava no mínimo cômica, mas se alguém levasse um pouco a sério, podia perceber um breve toque maligno nela. O dono da risada era mau e poderoso, líder da ordem de Magos de Guadalópez. Uns poucos o conheciam pelo nome. O resto o conhecia pelo pomposo título de “Mestre dos Magos”. Um homem que detinha o poder sobre boa parte da Terra Alta. E como qualquer um que detenha poder sobre boa parte de qualquer coisa, Mestre dos Magos queria mais. Queria toda a Terra Alta. Queria o mundo. O universo. E se soubesse da existência de universos paralelos, iria querê-los igualmente. Não necessariamente nessa ordem.

Pois era exatamente sobre isso que ria. Achara uma maneira de conquistar a Terra Alta. Um bom começo, pensou. Aquela informação seria seu passaporte para a felicidade. Depois de meses pesquisando naquela biblioteca bolorenta, finalmente encontrara algo útil. Um livro antiqüíssimo que revelava a existência de um artefato de extremo poder: O Anel Alheio. Só restava duas coisas. A primeira é saber onde ele estava. A segunda é descobrir como usa-lo.


- Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!


- Há há há há!!!


Mestre dos Magos levou um susto. Debruçou-se sobre o livro antigo que mostrava uma imagem do Anel Alheio. Quando se refez, olhou para quem estava gargalhando junto a ele. Era apenas um assistente que sempre estava por ali perto.


- Do que você está rindo, idiota?


- Não sei, senhor. Apenas vi o senhor rindo, com certeza devia ser algo engraçado. Ri para acompanha-lo.


- Ah, retire-se daqui, imbecil! – gritou Mestre dos Magos, recostando-se na poltrona. O assistente olhou para o livro por cima de seu ombro, como se estivesse procurando a piada. Viu o desenho do Anel.


- Hum, esse anel, acho que vi em algum lugar…


- Viu?! Onde?!


- Não lembro. Mas não faz tanto tempo.


- Trate de lembrar, imprestável! Sabe que Anel é esse?


- Hum, não senhor.


- Melhor assim. Não quero curiosos no meu caminho. Não dê uma palavra sobre o assunto a quem quer que seja, entendeu?


- Sim senhor!


Mestre dos Magos levantou-se e fechou o livro. Não tinha mais nada para fazer ali. Mandou o assistente arrumar tudo por ali e organizar os detalhes de seu retorno à Torre de Guadalópez. Quando estivesse lá, poderia arrancar a memória do pobre homem e saber da pista do Anel que ele tinha.


Algumas horas mais tarde, quando estavam na carruagem já próximo da Torre, o assistente disse repentinamente:


- Já sei! Foi na Capital da Praça. Aquele anel faz parte do troféu do Campeonato Anual de Dominó Autista. Se não me engano, as inscrições se encerram hoje.


- Cocheiro!! Dê meia-volta! Vamos para a Capital da Praça. Agora mesmo! – ordenou Mestre dos Magos, com um brilho maligno no olhar.

* * *

Blue finalmente tinha acordado. Frôxo estava sentado, comendo uns pedaços de mithril em frente à fogueira. Ainda não chegara o meio-dia, mas o sol já os castigava com o calor. Pouco a pouco Blue foi tomando consciência do mau cheiro que o impregnava.

- Argh! Que catinga! Cadê o velho?


- Foi tentar arrumar umas roupas com um mercante aqui perto.


- O que aconteceu? Por que a gente tá fedendo tanto?


- Por quê? A donzela perdeu tempo demais desmaiando?


- Já falei sobre isso. Não posso ver sangue.


- Eram esqueletos, Blue! Esqueletos! E morreram asfixiados!


- Bah, eu tenho certeza que vi uma mancha de sangue num daqueles esqueletos. Mas afinal, o que aconteceu?


Frôxo explicou-lhe todo o acontecido lá na montanha. De como quase foram devorados por Flautulos, e de como sua idéia genial salvou-lhes a vida.


- Você é idiota? Você o chamou!? Você-Sabe-Quem?


- Sim e se não fosse por isso…


- Se não fosse por isso nada! Você é um idiota. Um tremendo idiota. Um estupendo, colossal e magnânimo idiota! Você tem idéia do que fez?


- Bem, Barangorn falou o mesmo que você, mas não me explicou porquê.


- Você nunca ouviu falar da história de Você-Sabe-Quem?


- Não, nunca.


- Bem, depois eu conto. Barangorn já está voltando. Mas que você é um idiota, ah, isso você é.


Frôxo já estava se convencendo de que era um idiota de fato. Mas quando Barangorn voltou, decidiu não pensar muito no assunto. O guia estava trazendo um grande embrulho e já usava novas roupas. Quando se aproximou mais, mandou os dois tomarem um banho em um lago próximo usando uns pedaços de sabão que tinha comprado. Por sorte, foi suficiente para que eles se livrassem do cheiro de Flautulos.


Quando finalmente os três recomeçaram a viagem, eles pararam em uma bifurcação. A placa que indicava o caminho era bem clara. A estrada da esquerda levava ao Pântano do Paul. A da direita, à Capital da Praça. Mas Blue se interessou por um panfleto que estava grudado logo abaixo na placa. Depois de ler com certa excitação, declarou:


- Vamos pela direita!


- Mas não íamos para o Paul? – perguntou Frôxo aturdido.


- Mudança de planos. Tem um campeonato de dominó na Praça. Não posso perder essa por nada!


- Deiz muêda de ôro – Barangorn falou por fim.


- Hein?


- Fiz meu contratu pá ir pu pântanu. Si u sinhô mudá u destinu, u preçu aumenta.


- Tá legal. Frôxo, paga a ele.


- Eu?!


- Não se preocupa, cara. Vou ganhar esse torneio, e a premiação deve ser bem gorda. Depois acerto com você.


- Espero que sim.


Com todos os detalhes acertados, o trio foi finalmente para a Capital da Praça. O campeonato que estava para acontecer seria memorável. O porquê? Aguardem.


Contos da Terra Alta – Capítulo VIII

Dezembro 14, 2005

Frôxo já não agüentava mais. Um dia de caminhada dentro da montanha e tudo o que conseguia ver era a escuridão. Barangorn liderava o grupo, usando uma espécie de pedra fluorescente. Segundo ele, acender uma tocha poderia ser muito perigoso, pois certamente provocaria uma explosão de proporções catastróficas. Para Frôxo, ele estava sendo demasiadamente cuidadoso. Antes de entrar na tal montanha, Barangorn tinha distribuído uns cilindros que, segundo ele, estavam cheios de ar puro. Sem falar dos predendores de narinas em mithril, que cada um tinha recebido:

- Itu é casu nóis veja Flautulus. Ocês ponham nu nariz, quié pá num cheirá nata. Us tilindru, ocês ponham na boca, quié procês rispirá – instruiu Barangorn.


- Isso é ridículo! Acaso tem um gambá-carniça preso dentro desta montanha??? – contestou Frôxo.


- Algo muito pior, meu caro. Muito pior. Flautulos deixa um gambá-carniça asfixiado – Comentou Blue.


Para que vocês entendam a gravidade do comentário de Blue, vejamos o que o Guia do Mochileiro da Terra Alta (compre já o seu!) nos diz sobre o gambá-carniça:


“Gambá-Carniça:


Um dos animais mais fedidos de toda a Terra Alta. Seu cheiro é tão terrível que nem mesmo eles agüentam viver em grupo. Na verdade, nem mesmo eles suportam o próprio cheiro. Este animal aparece em muitos mitos e lendas do folclore autista. Há até mesmo uma superstição que diz que se alguém ver um gambá-carniça, terá azar por toda a vida. Na realidade, poucos conseguem ter contato visual com um, pois ninguém agüenta chegar tão próximo a ele.


O Gambá-Carniça chama a atenção dos estudiosos autistas. É o único caso da natureza onde os animais fazem sexo não por instinto, mas sim por obrigação. Por essa razão, são raríssimos. E é também um dos pouquíssimos casos em que o animal define o habitat em que vive. Afinal, sua mera presença é capaz de fazer a flora do ambiente apodrecer. Já se cogitou fazer um uso bélico deste animal, mas a idéia foi abandonada devida à alta periculosidade de criá-lo em cativeiro.”


Esclarecido o que é um gambá-carniça, voltemos à nossa narrativa. Já passava, pois, mais de um dia de caminhada dentro da montanha, e o visual não era nada animador. O caminho também não ajudava, pois era extremamente sinuoso. Subida, descida, descida íngreme, subida, mais descida, descida realmente íngreme, e assim por diante. A situação só ficou interessante quando Blue tropeçou em algo no chão:


- Que droga é essa??


Barangorn focou a luz no chão, para que pudessem ver onde pisavam. Foi então que viram esqueletos espalhados por todo o lugar. Bem, não viram por todo o lugar, mas não precisava pensar muito para chegar nesta conclusão. Em todos eles, uma característica em comum. Suas mãos estavam obstruindo o que antes foram seus narizes. Em alguns podiam-se ver ainda as expressões de extrema agonia pela qual passaram. Sem dúvida aquela era a prova de que Flautulos era bem mais do que uma velha lenda autista.


- Cadáááá…- Blue desmaiou. Barangorn colocou todo o equipamento no rato e em si. Mandou Frôxo fazer o mesmo. Não era hora de se descuidar. Pôs Blue nas suas costas e ordenou Frôxo a segui-lo fazendo o menor barulho possível.


Continuaram a caminhar. A tensão só aumentava e Frôxo começou a perceber que a densidade do ar também. Ao menos ele queria acreditar que era ar. Mais parecia que eles estavam andando submersos em algum lago. Na verdade, o gás que Flautulos exalava era tão denso que chegava até mesmo a limitar os movimentos. À medida que avançavam, os dois começam a escutar um respirar, vindo mais adiante do corredor. Só podia ser Flautulos, o Fedorento. Como não tinha o que fazer, continuaram indo em frente, com o maior cuidado possível. Podiam sentir o vento causado pela respiração do monstro. Fosse o que fosse, era enorme e felizmente estava dormindo. Frôxo era um legítimo representante do seu nome: tremia feito gelatina pegando carona em uma carroça desgovernada.


Quando julgavam estar diante do monstro, o pior aconteceu: Frôxo pisou em um graveto. Não foi o barulho do graveto sendo pisado que acordou Flautulos, mas sim a pergunta que Frôxo fez em seguida:


- O que faz um graveto aqui??


- Psssssiu! – Alertou Barangorn. Mas já era tarde demais. Dois olhos vermelhos brilhavam na escuridão e uma voz tonitruante preencheu toda a caverna:


- Quem está aqui??? Quem ousa despertar Flautulos??!?!


Então o monstro começou a andar. Uma fraca luz começou a invadir a caverna. Barangorn percebeu de imediato que se tratava de uma saída. Frôxo percebeu de imediato que Flautulos era um dragão, e dos grandes. Os dois juntos perceberam de imediato que Flautulos estava entre eles e a saída, e que isso iria complicar as coisas. Por sua vez, Flautulos ainda não percebera onde eles estavam escondidos. Blue não percebera nada, pois ainda estava desacordado. O dragão decidiu amendrotá-los:


- Vocês sabem que eu sou?? Sabem do que sou capaz?? Devo avisá-los que comi um pãozinho com ovo ainda agora, e neste momento estou terminando a digestão.


A série de risinhos nervosos de Frôxo denunciou a posição deles. O enorme réptil virou-se e usou sua arma mortífera:


- Ria disso seu pobre mortal!! Háháháhá!!!!


O que veio depois foi o terror. Para sorte dos três, eles ainda conseguiram se esconder atrás de um rochedo. Parecia que um tornado estava destruindo o lugar. Seguravam-se na rocha como podiam. Se pudessem sentir o cheiro do ar naquele instante, estariam mortos.


Foi nesse momento desesperador que Frôxo teve uma idéia. Caso não saibam, Frôxo era capaz de ter idéias brilhantes em momentos desesperadores. Infelizmente aquele não foi o caso. A idéia que ele teve ali foi totalmente idiota e somente por pura sorte acabou dando certo. Se Frôxo soubesse dos problemas que iria enfrentar no futuro, com certeza teria evitado essa manobra. Mas no momento, foi tudo que conseguiu pensar. Com dificuldade ficou em pé e gritou com toda a força:


- (censurado), (censurado), (censurado)!!!!!


Uma risada maligna preencheu o lugar. O cheiro ébrio de limão não invadiu o lugar, pois no quesito cheiro, Flautulos comandava. Então ele surgiu. O pesadelo de todo autista, aquele cujo nome faz tremer muitos. Você-Sabe-Quem.


- Quem me chamou??


Frôxo e Barangorn apontaram para Flautulos ao mesmo tempo e gritaram em uníssono:


- Ele!!!


- Não!! Mentira, foi aquele ali, com cara de idiota!! – Tentou defender-se Flautulos.


- Bem, são dois contra um, então eu escolho você! Bwhahahahahahaha!!!!


- Sabe quem sou? Flautulos, o Fedorento!!! Não pense que tenho medo de você!!!


- Ah, prazer, meu nome é (censurado). Faz tempo que não pratico a Fofoquiromancia, então, me desculpe se nunca ouvi falar de você.


- Ah, maldito! Aquela batata com doce de leite que comi ainda a pouco vai fazer você se arrepender do que disse!


- Eu sou o único imune à suas flatulências!!


- Argh!!! – A mentira de Você-Sabe-Quem acertou Flautulos em cheio. Enquanto isso, Frôxo e Barangorn tratavam de escapar dali. Que os dois resolvessem suas diferenças. Ainda podiam ouvir o barulho do terrível combate sendo travado na caverna, à medida que subiam até a saída. Então a montanha começou a tremer. Flautulos devia estar usando seu último recurso, um repolho podre que tinha comido no dia anterior. Blue finalmente acordou com o barulho.


- Mas o que está… – nesse momento ele se deu conta do prendedor de narinas e o tirou. Desmaiou novamente.


- Nóis tá muito pertu dele ainta. Rápitu, qui a montanha vai desmoroná.


Os dois subiram como um raio. Finalmente alcançaram a saída daquela montanha terrível e por pouco não foram soterrados lá dentro. Eles tinham vencido uma parte dificílima da viagem. Adiante estava a estrada que levaria ao Pântano do Paul. Só que eles não foram diretamente para lá. Antes foram para a Capital da Praça, onde estava ocorrendo o Campeonato Anual de Dominó Autista. Só que isto é história para outro capítulo.


Contos da Terra Alta – Capítulo 011-1406

Novembro 11, 2005

Aproveitamos esse emocionante momento de pura ação na história para dar uma palavrinha dos nossos patrocinadores. Falaremos agora sobre o livro que é o maior sucesso entre os autistas. Aquele que é mais famoso que o “O Livro de Ouro da Mitologia Autista” ou “Você-Sabe-Quem: Verdade ou Mito?” e que ganhou famosos prêmios como “o livro ilustrado mais vendido para cegos (1682 – 1839*)”. Trata-se de nada mais, nada menos que O Guia do Mochileiro da Terra Alta. Um guia completo que inclui toda a história da Terra Alta, figuras importantes, assuntos inócuos e sugestões sobre aquele lugar ideal para você passar suas férias com a patroa. Ele vem no prático formato bolso, pesando meros 15 quilos, com capa dura, onde há escrito com letras garrafais e amigáveis: “ENTRE EM PÂNICO, afinal você está na Terra Alta”.

O Guia do Mochileiro da Terra Alta contém tudo, absolutamente tudo que você precisa saber sobre esse maravilhoso mundo. Inclusive, o autor destes contos utilizou-se dele para escrever os capítulos que falam sobre a Terra Alta e Você-Sabe-Quem. Quer um exemplo? Vejamos o que o guia nos fala sobre Flautulos, o Fedorento (extraído da página 15.789.231):


“Flautulos, O Fedorento


Muito pouco se sabe sobre Flautulos. Todas as informações que existem sobre ele são plenamente baseadas em lendas e boatos. Só um fato é conhecido com certeza: sua incrível habilidade de exalar um pútrido odor, capaz de matar qualquer ser vivo que entre em contato com o fedor. A criatura morre após sofrer uma indescritível agonia, mesmo ela sendo incapaz de sentir cheiro. Fora isto, temos uns escassos relatos que pendem ao fantástico, como a história que diz que ele engoliu um gambá-carniça vivo (ver tópico sobre este animal). O pobre do animal estaria apodrecendo até hoje no seu estômago (se ele tiver um), conferindo a Flautulos sua notável capacidade.


A última aparição histórica de Flautulos aconteceu há uns 500 anos. Vários documentos apontam ele como o culpado pelo surgimento do deserto da Caaatinga Da Porra. Como todos sabem, a região deste deserto tinha a fauna e flora mais rica da Terra Alta. Contudo Flautulos soltou lá a sua arma mais mortal. Todos os seres vivos da região morreram e o local virou um deserto sem vida, ainda hoje impregnado com o terrível cheiro deste genocida. Após este incidente, ele foi banido, sendo obrigado a viver nas profundezas de uma montanha perto do Pântano do Paul. Alguns cientistas autistas ainda quiseram utilizar as habilidades de Flatulos como uma forma de energia econômica, mas essa idéia foi abandonada após muitas excursões de exploração terem sido perdidas ao inadvertidamente entrar em contato com o seu cheiro. Portanto, se você quiser visitar este maravilhoso Pântano (ver tópico relacionado) evite a todo custo a montanha que Flautulos mora. É melhor ir pela Capital da Praça, local bem mais agradável, sem falar que é a sede do famoso campeonato de dómino autista (ver tópico sobre o dominó).”


Totalmente informativo, não é? Ligue já 011-1406 e peça agora mesmo o seu guia. Mas espere!! Não é só isso! Compre agora o seu “Guia do Mochileiro da Terra Alta” e leve inteiramente grátis um guia com as regras do dominó autista e suas principais vertentes.


Mas não ligue ainda! Comprando à vista você ainda…


- Tá bom! Chega de propaganda! Vamos voltar à programação normal no próximo capítulo. Esperamos você lá!
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(1682-1839) – Esta contagem de anos é feita de acordo com o Registro da AMTA – Associação de Moradores da Terra Alta. Não tem nada a ver com a contagem normal que fazemos. Como exemplo, o ano vigente na Terra Alta é o 1840, enquanto o nosso é 2005.


Contos da Terra Alta – Capítulo VII

Novembro 1, 2005

Frôxo e Blue estavam exaustos. Caminhavam desde o raiar do dia e agora o sol estavam bem acima deles, castigando-os alegremente. Barangorn não demonstrava o menor sinal de cansaço, e já criara uma boa distância deles.

- Pera!! Barangorn! Pera aê! – Suplicava Blue. Barangorn parou. Já era hora de fazer uma pausa para comerem alguma coisa e explicar-lhes o que iriam enfrentar mais adiante. A floresta sombria já surgia ameaçadoramente na frente deles, e Barangorn não queria perder muito tempo naquele lugar.


- Vamu cumê. Mai nóis tem qui ser rápitu.


- Que merda ele falou? – Frôxo ainda não tinha se adaptado ao sotaque do nobre guia, mas já conseguia entender muita coisa. Só às vezes que seu vocabulário lhe traía.


- Hora da bóia. Se quiser descansar, aproveita. Parece que ele tá com pressa. – traduziu Blue.


- Ufa, já era hora! E o que temos pra comer?


Barangorn desempacotou os biscoitos e entregou alguns para os dois. Frôxo desanimou:


- Não! Mithril de novo não!


Já fazia uns cinco dias desde o primeiro encontro com Barangorn. A única coisa que eles comeram nesses dias foi mithril. Depois desse tempo, por mais gostoso que seja, ninguém agüenta sequer ver um biscoito de mithril na frente.


- Si num quer, mior. Soba mais.


- Merda… – Frôxo começou a comer o biscoito, desconsolado.


Depois de “almoçarem”, Barangorn permitiu os dois fazerem um rápido descanso. Quando já era hora de partiu, fez o aviso:


- Iscuti beim us tois. Naquela floreta teim um cimitériu. Num tá muitu tempu de caminhata não. Numa tarte nóis atraveta ela. Só num queru ficá lá di noite.


- É o cemitério clandestino? Ouvi falar que fica nestas terras – O rosto preocupado de Blue assustou Frôxo.


- É tim tinhô.


- Mas é mal-assombrado! Não vou por aí, não senhor!!!


Frôxo tremeu ao escutar “mal-assombrado”. Começou a dar sua característica crise de risos.


- O tinhô é um homi ou um pratu de papa? Di tardi não teim pirigu não tinhô – e sem dizer mais nenhuma palavra, Barangorn declarou por encerrada a questão. Começou a caminhar em direção à floresta, em um passo rápido. Sem mais o que dizer, Blue e Frôxo correram para acompanhá-lo.


Não demorou muito para que eles estivessem no coração da floresta. Nem conseguiam enxergar uma trilha ali. Dependiam apenas da experiência de Barangorn. De súbito, o guia pára. Quando os outros dois o alcançou, descobriram o porquê: havia o corpo de um homem no chão, segurando firmemente uma garrafa de pinga.


- Um… um… mooor… – Blue nem completou a frase, pois desmaiou ali mesmo. Barangorn apenas verificou o pulso do homem caído. Deu uma rápida olhada no lugar e concluiu:


- U nomi dele era Zé. Ele morreu di cirroti aguda. Ele tava pateando aqui com um amigu, us tois tavam bêbadu. Inclusivi o amigu dele qui si chamava Zé, morreu tamém. Eles viram alguma coisa assustatora, tenhu certeta.


- Assustadora como uma lápide quebrada e uma cova aberta?? Tem até um nome aqui… deixa ver… “aqui jaz (censurado*)”…


- Nããããããããuuuuuumm!!!! – Barangorn saltou sobre Frôxo, tapando sua boca. O coitado do rapaz ficou aturdido, sem saber o que se passava.


- Nunca mai ripita ete nomi, ententeu??


Frôxo fez que sim com a cabeça. Queria saber o porquê, mas tinha medo do que podia descobrir. A cara de desespero que Barangorn fez não ajudou muito também.


- Vamu imbora daqui, antis que anoiteta. Pega nus braçus du ratu qui eu pego as perna.


E assim atravessaram a floresta, sem maiores problemas. É verdade que bateram a cabeça de Blue algumas vezes nas raízes que estavam expostas, já que pela forma que o carregavam, ela pendia livre. Mas não causou nenhuma seqüela, como confirmariam mais tarde. Quando a noite caiu, eles já estavam diante de uma grande montanha, único obstáculo que os separavam do pântano do Paul. Finalmente Blue tinha recobrado os sentidos:


- Droga, que dor de cabeça! Onde estamos?


- Mas que belo, hein? Desmaiando feito uma moça… – repreendeu Frôxo.


- Cala a boca, donzelo. Não posso ver sangue.


- Mas não tinha sangue ali.


- Mas eu poderia encontrar mais cedo ou mais tarde. Melhor ter desmaiado logo. Já atravessamos a floresta?


- Já tim tinhô. Aminhã vamu entrá nas mina dentu da montanha. Tem genti qui diz qui Flautulos mora aí dentu da montanha. Entaum a genti vai passar rapidin, intenteram?


- Mas quem é Flautulos? – perguntou Frôxo.


- Ah, cala a boca. Melhor você não conhecer. Dorme aí que amanhã o dia é cheio. Boa noite vocês todos.


Os três se acomodaram e não tiveram problemas para dormir, exceto Frôxo. O incidente do nome proibido ainda martelava na sua cabeça. Decidiu perguntar a Blue:


- Blue? Acorda!


Escutou um gemido como resposta. Continuou:


- Blue? Tá acordado?


- Agora estou. Que foi?


Frôxo contou o que acontecera na floresta. Blue não deu muita atenção. Estava ainda com aquela enxaqueca estranha, e também muito sono.


- Ah, faz o que ele mandou. Fica quieto e não fala mais. Tem umas histórias por aí, que se você falar um certo nome três vezes, algo ruim acontece. Agora vai dormir.


Frôxo ainda estava encucado. O que aconteceria se chamasse aquele nome por mais duas vezes? Ele logo, logo saberia. Como? Em um outro capítulo vocês ficarão sabendo.
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* Censurado: quando você, caro leitor, ver esta palavra entre parênteses, saiba que aqui foi citado o nome de Você-Sabe-Quem. Por motivos óbvios, o nome foi suprimido desta obra. Cuidamos também da sua segurança.


Contos da Terra Alta – Capítulo VI I/II

Outubro 26, 2005

Já passava da meia-noite. A lua cheia lançava sua pálida luz entre as árvores daquela densa floresta. A neblina adensava-se em uma macabra dança, enquanto o silêncio, brevemente entrecortado pelo piar de uma coruja, era o arauto do medo. Dois amigos, totalmente embriagados, perambulavam sem rumo neste cenário sombrio, totalmente alheios ao perigo que os cercava. Um deles, um magro alto, contava piadas sem graça para o companheiro, que tentava a todo custo fazer uma ligação num celular imaginário. Mal sabiam eles que caminhavam pelo sombrio cemitério clandestino da Terra Alta. Um lugar amaldiçoado por muitos e visitado por poucos.O magro de repente tropeça em algo. O seu companheiro tropeça solidariamente. Com esforço, ele consegue enxergar um banco daqueles usados em praças e afins. Na verdade, ele tinha visto uma lápide, mas seu estado de alcoolismo não permitia fazer tais distinções. Num lampejo de lucidez, ele perguntou-se o que um banco estaria fazendo ali, no meio do mato. Como não conseguiu reaver o raciocínio, perguntou ao colega:

- Ô Zé (hic), pra que esse banco tá aqui (hic)?

- Ô seu imbecil (hic)! É pra nóis sentar (hic).

- Ah é (hic)! Então vamo terminar (hic) a garrafinha de pinga que eu trouxe (hic).

E assim os dois se sentam e começam a esvaziar a garrafa ali mesmo. Quando a mesma chega na sua metade, um dos dois avisa:

- Peraê (hic)! Vou fazer uma ligação… – ao dizer isso, coloca sua mão em forma de concha na orelha – Alô? É o Djabo?! Já tô chegando!

Se ele soubesse o quanto suas palavras eram verdadeiras, talvez nunca tivesse dito isto. Logo após, ele deixou derrubar a garrafa derramando o precioso líquido no chão. Após o descuido (que nem foi notado pelos dois), seu companheiro fez a seguinte proposta:

- Ei, Zé (hic)! Vamo vê quem (hic) conta a mintira mais braba??

- Rá! Ganho facin, facin (hic). Começa tu.

- Tá bom (hic). Teve uma vez que eu (hic) fui nadar no lago de tarde. Daí me deu um soooono (hic). Tirei um cuchilo dibaixo dágua mermu. Só fui acordá quando já tava de noitinha.

- Que mintira da porra, Zé!! – os dois se chamavam Zé – Ta pior que Você-Sabe-Quem!

Um relâmpago ilumina a noite e um trovão sinistro acompanha o simples mencionar do nome maldito. Uma coruja passa voando por ali perto. Os dois, alheios ao que acontecia, continuam a inventar mais histórias, sem saber que na verdade estavam despertando algo que devia ficar perdido para sempre ali.

- Tem outra boa (hic)!! Um dia desse, depois de um toró daquele brabo, cum truvão e tudo, fui dá um passeio nu mato. De repente ouvi aquele baruio estranho (hic). Cheguei perto da moita e o baruio lá, só chiando. Dei um tapa na moita e pá! Num é que tinha um raio preso lá dentro?

Neste momento um raio cai entre eles, atingindo a lápide. Uma mão sai do solo e uma voz bradou:

- Essa história foi boa, mas tenho uma melhor!! BWHAHAHAHA!!!!!!

- Quem que tá falanu??

A adrenalina começou a pulsar nos dois amigos. Disputava o controle do corpo deles com o álcool. Enquanto discutiam, o medo ficou tomando conta dos dois.

Então ele surgiu. Um ébrio cheiro de limão invadiu o ar, enquanto os dois tremiam diante a sua presença. Era simplesmente o pesadelo de todo autista, aquele cujo nome faz tremer muitos. Você-Sabe-Quem.

- C-CORRE ZÉ!!!

- Não adianta escapar! Vocês vão escutar minha história!!

-NÃÃÃOOO!!!!

O primeiro deles (o que mandou recado para o diabo) foi uma vítima fácil. Não conseguiu escapar a tempo de beber o líquido maldito que estava em uma garrafa empunhada pelo Mentiroso e caiu morto no chão. O segundo correu o máximo que podia, mas não pôde evitar escutar a história de Você-Sabe-Quem. Foi uma mentira tão grande que fritou o cérebro do pobre rapaz (não citaremos a mentira por motivos óbvios). Você-Sabe-Quem ficou triste por ter que beber sozinho, mas fez uma promessa a si próprio:

- BWHAHAHAHA!!! Já era tempo de retornar!! Que os autistas tremam, pois serei amigo de TODOS!!! BWAHAHAHAHA!!!!!!!

E assim saiu rumo a um destino desconhecido. Um destino que com certeza influenciaria na vida de todos os autistas. A ameaça estava pairando mais uma vez sobre a Terra Alta. Quem poderia proteger os pobres autistas? Aguardem o próximo capítulo.