Contos da Terra Alta – Capítulo XIV

março 21, 2007

Já dissemos que a Terra Alta é um lugar fantástico, mas ainda não dissemos que ela é um berço incrível para as maiores lendas que a humanidade já criou. Muitos estudiosos já comprovaram que boa parte dos mitos que conhecemos hoje foram originados pela antiga sociedade autista que, por modéstia, nunca exigiu direitos de copyright.E entre os estudiosos, e fora deles também, é consenso que a Terra Alta possui dois heróis bastante venerados dentro de sua mitologia. O segundo mais louvado é Barbimedes, que, numa pequena enumeração de seus feitos mais incríveis estão a construção das sete maravilhas do mundo, a descoberta do fogo, a invenção da roda, a construção da arca de Noé, da Pequod e da Argos (ele era muito bom em construir barcos), o achado do santo graal, a descoberta da América, a ida do homem à lua, e é claro, os seus famosos 13 trabalhos. Bem, não tão famosos, já que na versão grega são apenas 12, e estes são feitos por Hércules. Mas historiadores garantem que o 13º trabalho existe sim, e foi a incrível saga de Barbimedes para acabar com todo o estoque de hidromel de um grande rei, bebendo barril por barril para que o seu amigo monarca não sucumbisse ao alcoolismo de que era vítima (mais histórias sobre Barbimedes podem ser encontradas no incrível Guia do Mochileiro da Terra Alta, peça já o seu!).

Contudo, o primeiríssimo herói das lendas autistas é o venerável Manoé. Seu único feito foi ser o único jogador de dominó autista a conseguir realizar a mais incrível jogada: a Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. De acordo com a lenda, essa jogada, realizada no torneio em duplas, consiste em alguém ganhar sozinho, fazendo todos da mesa passar suas rodadas, encerrando com uma quadrada*. Isso tudo sem ao menos ver suas próprias peças. Muitos dizem que é impossível, e que somente um grandessíssimo sortudo poderia realizar tal proeza. Mas os integrantes da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6 garantem que Manoé era um profeta, e que somente profetas do Grande 1ao6 podem realizar a santa jogada. A verdade é que o mito desse herói tem uma força tão grande que passou a ser o ano 0 do calendário autista. Já o torneio que ele ganhou passou a ser o campeonato número 0, não porque Manoé participou dele, mas sim porque os organizadores já haviam perdido a conta de quantos torneios foram realizados.

***

Frôxo estava nervoso, como sempre nestes últimos dias. Também não era para menos: todos os olhares do mundo autista estavam voltados para ele. Naquela manhã mesmo recebera convites para fazer comerciais, assinar um contrato para um filme, escrever uma autobiografia e ser um alto sacerdote da Venerável Seita do Grande Deus 1ao6. Claro que havia motivos menores para seu costumeiro nervosismo, como por exemplo, a possibilidade de Você-Sabe-Quem estar atrás dele e de descobrirem a trapaça que Blue fez com os dois bêbados. Sem falar do Anel Alheio.

Suas olheiras pela falta de sono estavam bem visíveis. Dentro do vestiário, ouvia os abafados gritos da multidão ensandecida. Imaginava de que modo acabaria morto naquele dia. Blue olhou para ele e tentou animá-lo:

– Qué isso rapaz! Que cara é essa? Só falta mais um jogo. Ganhamos esse e já era!

Frôxo fitava o horizonte, com o olhar torpe de quem já contemplava o além-túmulo. Blue segurou seus ombros, encarou bem nos seus olhos e disse:

– Escuta aqui, eu odeio admitir isso, mas lá vai: você é o gênio desta dupla. Você nos trouxe sozinho até aqui. Se você não jogar do jeito que fez até agora, não vamos ganhar. Por isso eu preciso de você aqui, agora. Entendeu?

Frôxo, admirado pela declaração de Blue, perguntou com uma voz sumida e emocionada:

– Pôxa Blue, é sério?

– Claro que não, ô paspalho! Você só está na dupla porque Barangorn não gosta de dominó e preferiu ficar lá no hotel, dormindo. Mas façamos de conta que você é importante e vamos lá fora terminar o jogo. Ok?

Frôxo engoliu em seco. Minutos depois ele se viu na quadra, sob os olhares e aplausos calorosos da multidão. Ele nem sequer prestou atenção quando Jubolf e Uskabba entraram e o locutor anunciou as duas duplas. Sentia seu estômago se revirar.

– Frôxo!

Blue deu-lhe um tapa na nuca e mandou ele sentar-se no seu lugar. A multidão delirava, entoando seus gritos para o grande Zé Pequeno. A final estava para começar.

***

No camarote mais caro do estádio, Mestre dos Magos bebericava o drink mais caro do cardápio e aguardava pacientemente por notícias do seu assistente. Ele não conseguira criar nenhum plano bom o suficiente para tomar o troféu para si e estava dependendo exclusivamente das informações que o inútil ficara encarregado de encontrar.

Quando já imaginava qual maldição iria lançar no infeliz, eis que seu assistente entra de súbito no camarote:

– Consegui, senhor!!

– Conseguiu o quê, centopéia bípede?

– As informações que o senhor precisava. Estes dois Zés que estão na final não passam de impostores. A dupla real está até agora na taverna da praça, bebendo sem parar.

– Era tudo o que precisava. Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!

– Há há há há!!

– Do que está rindo, mariposa besuntada?

– Nada, meu senhor. Estava apenas o acompanhando.

– Ah, fora daqui, sua hiena mórbida!!

***

O juiz acabara de explicar as regras e mandara iniciar a partida. Todos os jogadores viraram suas peças, para conferir se tinham a peça inicial, a dupla de seis. Menos Frôxo, é claro. De tão nervoso que estava, pegou uma peça qualquer e colocou no centro da mesa.

– Que diabos está fazendo, imbecil? – gritou-lhe Blue.

Mas era tarde demais. O juiz sentenciou que a peça fosse virada e que, se não fosse a correta, penalizaria Frôxo pela jogada. Blue, já irritado, virou a peça e, para a surpresa de todos, era a dupla de seis. Não fosse o suficiente, Jubolf, Blue e Uskabba passaram sua vez, já que não tinham nenhuma peça para jogar.

– Oh!!! – Gritou toda a multidão, maravilhada. Frôxo havia começado, sem querer, uma Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada.

Blue não estava gostando daquela idéia. Era verdade que Frôxo tinha sido abençoado com uma sorte fora do normal desde que começara o torneio, mas tentar uma jogada como aquela era insanidade. Ele gritou:

– Frôxo, idiota! Vira as malditas peças! Olha teu jogo!

Mas, logo em seguida, o juiz, que tinha uma voz bem grave e intimidante, ordenou:

– Sua vez! Joga!

Frôxo obedeceu instantaneamente, por puro instinto. Pegou novamente uma peça qualquer e colocou na mesa. Dessa vez Jubolf a virou e nova surpresa: a jogada foi legítima, e mais uma vez os três passaram seu turno.

E esta cena se repetiu por mais três vezes. Todo o estádio estava em pleno silêncio. Era um momento incrível, único, histórico e para muitos, até mesmo sagrado. Nunca ninguém chegara tão longe em tentar repetir a proeza do lendário Manoé. Frôxo já tinha gravado seu nome na história da Terra Alta. Bem, não exatamente seu nome, mas de qualquer forma, ele já se igualava aos maiores heróis daquele mundo.

– Q-Que aconteceu?? Eu joguei errado? Porque vocês não jogam? – perguntou Frôxo, alarmado.

– JOGA! – gritou o juiz, empolgadíssimo com o jogo.

Frôxo, com o susto, soltou sua última peça, que ainda caiu com sua face virada. Então o juiz, lentamente, começou a virá-la. Ninguém sequer respirava neste momento.

– QUADRADA! É UMA QUADRADA!!

Todos foram ao delírio. Zé Pequeno, integrante prodígio da dupla Zé & Zé, acabava de ganhar sozinho o torneio anual de dominó autista. E a vitória veio com uma incrível Royal Goddish “How-He-Fuck-Did-It?” Quadrada. Ele seria lembrado por várias e várias gerações, depois daquele feito.

Frôxo não entendia o que estava acontecendo. Jubolf e Uskabba o ergueram, e o conduziram para o podium, já armado ali perto. Blue estava levemente irritado. Todos no estádio gritavam freneticamente seu nome, quer dizer, o nome de Zé Pequeno. O locutor falava algo sobre uma jogada impossível, histórica, lendária e etc.

Logo depois ele se viu no podium sozinho, com uma coroa de louro na cabeça e um enorme troféu em mãos. Era como se a profecia do mago estivesse se cumprindo, mas totalmente ao inverso. Mas Frôxo não pôde aproveitar sua glória por muito tempo. Enquanto dava sua característica série de risos nervosos para a multidão, eis que uma voz sobressai dentre as outras:

– Guardas!! Prendam este homem! Ele é um farsante!

Todos se viram para encarar o blasfemador. Era nada mais, nada menos que o próprio Mestre dos Magos. Ninguém ousaria contestar uma ordem sua. Frôxo estava então em uma bela enrascada. Como iria se livrar? Contaremos no próximo capítulo, é claro!

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* Quadrada: significa jogar sua última peça, com os dois valores idênticos, e este mesmo valor se repetir nas duas pontas do jogo. Exemplo: as pontas do jogo possuem ambas o número 2, e a última peça que você joga é a 2×2.


Promessas de político

fevereiro 6, 2007

Não se preocupem, eu não desisti de escrever o resto do CTA. Termina-lo-ei, é questão de honra. Só não tenham pressa. =)


Só pra saber

janeiro 14, 2007

Aê, tem alguém acompanhando o CTA? Mesmo com todos os atrasos? Levantem a mão, se você ainda quer saber onde vai parar essa história.


Contos da Terra Alta – Capítulo XIII

outubro 5, 2006

– E se não fosse minha jogada, Frôxo não teria encaixado aquela quadrada!

Blue contava todos os lances do dia para Barangorn, que tinha decidido passar todo o seu tempo no conforto do hotel. É claro que o rato alterava um pouquinho a história a seu favor, mas Barangorn, assim como todo mundo, sabia que ele era na verdade um peso morto na dupla.


– I aminhã é a final?


– É sim. E a partida está praticamente ganha. Veja as possibilidades, Bara (Posso te chamar assim, né meu chapa?). Torneios e mais torneios. Prêmios e mais prêmios. Mulheres. Ah sim, cederei algumas entrevistas e contratarei uma equipe de marketing. Comerciais e quem sabe uma carreira no cinema…


No seu delírio, Blue já abraçara Barangorn e passava a mão pelo horizonte, como se estivesse lendo seu nome em um letreiro imaginário. Barangorn achou melhor mudar o assunto:


– Homi, i ondi tá Frôxu?


– Ah, aquele babaca tá no bar do hotel se embriagando com leite. O coitado quase não agüentou a pressão destes últimos dias. Mas daqui a pouco já volta, mandei ele se segurar na bebida, afinal amanhã é o meu dia.


Neste exato momento, alguém bateu à porta. Blue completou, enquanto ia abrindo:


– Não disse? Só espero que ele tenha me escutado e…


Blue se assustou com a cara sorridente de Uskabba e o vulto de Moisés com um chapéu ridiculamente pontudo que estava logo atrás dele. Uskabba então falou da sua maneira irritantemente tranqüila:


– Olá, meu jovem. Podemos entrar?


– Hã? Quê… O quê é que vocês estão fazendo aqui?


– Só queremos conversar um pouco.


– Conversar? Já sei, vocês vieram me comprar!


– De maneira alguma meu jovem. Viemos deixar-lhe a par de um grave problema que poderá afetar a todos nós se não nos unirmos e…


– Rá rá rá!! Essa é boa! Ta me achando com cara de idiota? Não adianta vir com conversa mole. Eu sei! Vocês querem ganhar de qualquer jeito e estão tremendo de medo da minha genialidade no dominó. Mas não adianta, porque…


Nesse momento, Blue teve um leve vislumbre do lendário poder de persuasão e educação que Jubolf, o vulto de Moisés que ali estava, possuía. Em uma lenda bastante difundida, Jubolf, alguns séculos antes de ingressar no campo da magia, teria sido um mero professor de etiqueta e oratória na Torre de Guadalópez. Não havia nenhuma confirmação nos bancos de dados do RH da Torre, muito menos pelo próprio. Apenas a certeza que, por algumas demonstrações como a que Blue presenciava no momento, ele poderia ter sido o melhor professor de etiqueta e oratória já visto:


– CALA ESSA MALDITA BOCA E DEIXA A GENTE ENTRAR, RATO DOS INFERNOS! SENÃO VOU FRITAR O SEU RABO DE UMA MANEIRA QUE DEIXARÁ ZEUS COM INVEJA, ENTENDEU?


Blue não soube se foi a voz tonitruante do mago ou as faíscas elétricas que começaram a brotar do seu cajado que o persuadiu de uma maneira tão rápida. Ele apenas se viu convidando os dois a entrar e a sentarem-se no espaçoso sofá da sala, enquanto ia preparar um café. Barangorn, que já conhecia os dois desde muito tempo, não ficou surpreso por vê-los e perguntou o que os trazia até ali. Afinal, revê-los era apenas sinal de que algo errado estava acontecendo.


– Não ainda acontecendo, adiantou Jubolf, mas na iminência de acontecer. Precisamos nos antepor aos eventos. O outro tolo está chegando, vamos esperá-lo para deixar tudo às claras.


Depois de alguns segundos, a porta se abre. Frôxo, ainda sem se dar conta da presença das visitas, entrou e perguntou:


– Blue, acaso você sabe o que é uma quadrada??


Só então, quando passou os olhos pela sala, viu o mago e o elfulera.


– Ah, olá… O que fazem aqui?


– Sente-se e escute com atenção – disse simplesmente Jubolf.


Quando todos estavam na sala confortavelmente sentados, o velho mago começou a contar a história:


– Há muito, muito tempo atrás, quando Você-Sabe-Quem andava livre pela Terra Alta, ele teve uma idéia maligna. Naqueles dias, o maldito era amigo de todos, até finalmente todos se darem conta do terrível engano que cometiam ao ofertar-lhe aquela amizade. Pouco a pouco os autistas cortaram suas relações com Você-Sabe-Quem. O último deles, porém, teve um destino infeliz. Quando o pobre autista disse ao Mentiroso que não queria mais sua amizade, Você-Sabe-Quem enlouqueceu. Matou-o com uma mentira terrível e roubou-lhe um anel dourado que ele trazia na mão esquerda.


“Pouco depois, ainda ensandecido, o maldito foi até a caverna de Mordor e proferiu uma mentira tão grande que, segundo diz a lenda, o vento recusou-se a levar para os quatro cantos do mundo. A mentira ainda ecoa naquela caverna, capaz de matar quem a escute. Nesse mesmo lugar, Você-Sabe-Quem lançou uma maldição naquele anel, uma maldição que obrigaria todos os autistas a serem seus amigos novamente. E, para confirmar sua intenção maligna, ele gravou os versos dessa maldição no Anel Alheio.”


Solenemente, Uskabba começou a recitar os versos da maldição:

“Um anel para todos me amar, Um anel para encontrá-los,
Um anel para a todos trazer e na minha amizade aprisioná-los
Na Caverna de Mordor onde as mentiras espreitam.”

Frôxo e Blue tremeram diante aquela citação terrível. Um trovão ecoou lá fora, fazendo Frôxo pular da poltrona.

– Rá rá rá! Eu adoro esse efeito! – falou Jubolf, sorrindo como uma criança que pregara uma peça.


– Foi você quem…


– Sim, mas me deixe continuar a história.


“Logo após isso, Você-Sabe-Quem conseguiu uma breve, mas massiva vitória. Ele realmente começou a conquistar a amizade de milhares de autistas. Foi preciso uma forte união entre magos, elfuleras e homens e uma grande guerra para que finalmente conseguíssemos parar o maldito. Em uma grandiosa batalha, o grande rei Baranbaragorn decepou o dedo que continha o anel, aniquilando os poderes de Você-Sabe-Quem… por um certo tempo. O grande rei (sim, seu estúpido, era o tetra-penta-avô de Barangorn, não me interrompa mais!) reclamou para si o Anel, e ao invés de destruí-lo para todo o sempre, decidiu guardá-lo.”


Blue fez menção em se levantar:


– Espera aí que vou beber água. Não continua a história sem mim!


– Sossegue esse rabo nesta cadeira, se não quiser que um daqueles trovões exploda sua maldita cabeça.


“Não tardou para que o grande rei começasse a contar mentiras. E de mentiras partiu para a obsessão por amizades. E então iniciou-se outra guerra, e mais outra e mais outra, sempre sob a influência do Anel. Até que a história se perde sobre o destino final do Anel. Talvez ele tenha ficado perdido por um bom tempo, mas infelizmente, só até agora.”


– O que você quer dizer? – perguntou Frôxo, de olhos esbugalhados.


– O que eu quero dizer é que o Anel voltou! Talvez estivesse tirando férias, sei lá. O que importa é que ele voltou, e com certeza reclamará pelo seu verdadeiro dono.


– O carinha que Você-Sabe-Quem matou?


– Não, seu demente! Você-Sabe-Quem em pessoa!


– Mas o anel não era do carinha?


– Não! Quer dizer, era! Ora, cale-se! O que finalmente quero dizer é que a merda do Anel está atachado ao troféu deste maldito torneio. E é por isso que precisamos ganhar o torneio, caso contrário o Anel cairá em mão erradas.


– Rá! Finalmente! – atalhou Blue – A máscara finalmente caiu! A história é muito boa, mas você realmente acha que iríamos acreditar? Você só quer levar o torneio no bico, só isso!


– Vocês podem ganhar o torneio, só queremos o troféu. – explicou Uskabba.


– Nem uma coisa nem outra! O troféu será nosso! Se quiser ele, que ganhe a partida!


Jubolf levantou-se. Sabia que aquela discussão seria inútil. Caminhou até a porta e disse:


– Você está cometendo um grave erro, pequeno rato. Nós não somos seus inimigos. E “ele” não morreu soterrado naquela montanha junto de Flautulos. Você-Sabe-Quem virá para reclamar sua amizade com ele – apontou para Frôxo – e aí eu quero ver o que vocês irão fazer. Sua única esperança, meu jovem, é a destruição do Anel.


E então saiu furiosamente. Uskabba saiu logo atrás, mas ainda olhou para eles e deu de ombros:


– Às vezes acho que ele é só um velho maluco. Mas, por favor, pensem no que falamos. Até amanhã, no torneio, meus caros.


E, fazendo uma mesura, se retirou dali, deixando Frôxo e Blue com cara de aparvalhados. Barangorn, antes de se recolher, deu sua preciosa opinião:


– Às vêis Jubôfo teim razaum. Bua nuite.


Frôxo perguntou a Blue:


– E se ele estiver certo, Blue?


– Bah, isso tudo é bobagem! Esquece isso e se concentra pra amanhã, Frôxo. Eu vou dormir.


Frôxo tentou dormir naquela noite, mas não conseguiu. O pensamento de que Você-Sabe-Quem viria atrás dele contribuiu muito para sua insônia. O que ele faria? O que ele devia fazer? Saberemos apenas no próximo capítulo, onde finalmente ocorrerá a grande final do torneio. Sim, a final será realmente no próximo capítulo. Aguardem.


Contos da Terra Alta – Capítulo XII

agosto 2, 2006

Finalmente, após algumas horas de atraso, começou o torneio. Um telão armado próximo das arquibancadas, equipado com os últimos recursos da magia eletrônica, mostrava cada lance emocionante das partidas que se desenrolavam no estádio. É claro que os torcedores, como bons autistas, também se valiam da fofoquiromancia para saber exatamente o que estava acontecendo. Frôxo, como de costume, estava nervoso, rindo sem parar. Ele e Blue fariam a ultima partida daquela fase, que já era uma eliminatória. Após revisar as lições que Uskabba tinha lhe passado sobre o jogo, ele descobriu que esquecera todas. Bastava agora apelar para a sorte. – É só jogar as peças com o número de pontos iguais aos da mesa, Frôxo. Não tem erro – explicava Blue. – Certo. Número igual, joga a peça. Número igual, joga a peça. Número igual… – e assim Frôxo seguiu para seu lugar à mesa.

A primeira partida era contra uma dupla inexpressiva. Blue estava confiante. Jogava aquilo desde garoto, praticamente conhecia o segredo das peças. Era bem verdade que Frôxo nunca havia jogado, mas esse ínfimo detalhe não iria lhe atrapalhar.


Com tudo pronto, deram início à partida. Depois de duas, três rodadas, não demorou muito para Blue perceber o quanto se enganara. Frôxo parecia jogar a favor dos adversários. Ele tremia e mal conseguia segurar suas peças. Quando jogava, sempre prejudicava Blue. Desse modo, a partida já estava quase no fim, e todos estavam certos que a dupla Zé & Zé sairiam logo no começo do torneio. Até que aconteceu um milagre.


Frôxo, pelo jeito que estava jogando, sabia que a profecia do mago iria acontecer palavra por palavra, e não o inverso como Uskabba insistiu em lhe fazer acreditar. Esse pensamento somente o deixou mais nervoso, e por conseqüência, sua tremedeira aumentou. Isso fez uma das peças em sua mão cair, com a face dos números para cima. O juiz, que estava de olho no lance, setenciou:


– Você é obrigado a jogar esta peça agora.


– Mas eu ia jogar outra…


Blue mal acreditou quando viu a peça. Era o número que precisava para retomar a vantagem. Quase não se conteve:


– Joga Frôxo! Joga! Pelo amor de Deus! Obedeça ao juiz!


O juiz acabou mostrando um cartão amarelo para Blue, pois este pediu por uma peça. Mas ainda assim não voltou atrás e exigiu que Frôxo jogasse a peça que tinha caído na mesa. Frôxo, sem mais o que fazer, obedeceu. Com essa jogada eles viraram o jogo milagrosamente.


A multidão foi ao delírio. Todo mundo aplaudiu aquela vitória incrível. Daquele momento em diante a dupla Zé & Zé começou a liderar o torneio e virou a preferida da torcida. Apelidaram Frôxo de Zé Pequeno (já que ele era baixinho) e Blue de Zé Gabiru. Começaram a surgir histórias de como o tal Zé Pequeno iniciou o torneio perdendo, para que, na hora da virada, deixasse teatralmente cair sua peça vitoriosa e liquidasse a primeira dupla.


Frôxo mal podia acreditar. Qualquer peça que jogasse, mesmo sem entender nada da partida, acabava criando uma jogada incrível. Blue já estava irritado com um boato que surgia sobre Zé Pequeno ser o cérebro da dupla. Mas o fato é que, depois de dois dias de partidas, estavam na final do torneio. E a dupla que iriam enfrentar era, nada mais, nada menos que Jubolf & Uskabba.


Havia somente uma pessoa que não estava satisfeita com o desenrolar do torneio, além das duplas derrotadas, é claro. Mestre dos Magos, dentro da sua habitual suíte mais cara, do hotel mais caro da Capital da Praça, fumava seu habitual charuto mais caro e dava sua habitual bronca no seu assistente:


– Está vendo seu imbecil? Olha só a desgraça que me aconteceu! Agora como vou conseguir o um Anel, sua foca vesga?


– Não se preocupe senhor, eu darei um jeito de convencer a dupla vencedora…


– Você dar um jeito? Você não dá jeito nem em você mesmo, seu ornitorrinco alado! Descubra o que puder sobre esses Zés. Tenho certeza de que eles irão ganhar o torneio. Eles não são iniciantes, como você, seu demente iletrado, me fez acreditar. Eu quero algo sobre eles que possa usar ao meu favor, entendeu?


– Sim, senhor.


– Ótimo.


– …


– O que está esperando, sua morsa leprosa?


– Nada, senhor. Estou partindo imediatamente.


Mestre dos Magos já não lhe dava mais atenção. Estava tramando planos que iam do B ao Z, caso seu assistente não conseguisse alguma informação importante. E principalmente, sonhava com o poder do Anel Alheio em suas mãos:


– Mumurrárrárrárrárrárrárrárrei!!!


E assim, com essa risada maligna, terminamos este capítulo. Aguardem o próximo, onde finalmente o Torneio Anual de Dominó Autista elegerá sua dupla vitoriosa.


Capítulos em PDF

maio 28, 2006

Então, criei um pdf que vai do capítulo I ao X. Fica bem melhor pra ler ao invés da palhaçada de procurar no blog os capítulos antigos. Alguns nem dá pra olhar mais. Vou colocar o link aí do lado também, mas se quiser ver por aqui, dá na mesma:

Clica aqui pra baixar.

A senha é: bolseiro. Sem o ponto, por favor… ¬¬

PS.: Sim, eu sei, capítulo novo tá demorando. Paciência. Vai sair nessa década, juro.


Contos da Terra Alta – Capítulo XI

abril 29, 2006

Era dia de festa na Capital da Praça, pois finalmente havia começado o famoso campeonato de dominó autista. Pessoas vindas dos quatro cantos da Terra Alta estavam presentes na cidade, esquentando o movimento das tavernas e estalagens. O Estádio Central, onde se desenrolava o torneio, estava completamente lotado e colorido. A algazarra da torcida ensurdecia qualquer um ali perto. A única voz que se fazia ouvir, graças à ajuda de 400 potentes auto-falantes, era a do famoso locutor de dominó, Faisão Bueno: – Olááááá amigos da Rede Mordor! Estamos aqui mais uma vez para acompanhar maaaais um emocionaaaaaaaante Campeonato Anual de Dominóóóó Autista! E parece que teremos surpresas para este ano! Novas duplas se inscreveram e… Blue estava ansioso demais para prestar atenção naquele falatório. Neste momento, ele e Frôxo estavam em pé no meio do estádio, junto com os demais atletas do dominó. Blue podia sentir os olhares pairando sobre ele. Mesmo quando Faisão anunciava alguma dupla mais importante (todas eram), o rato podia escutar seu nome nos gritos da torcida. Quer dizer, seu nome não, o nome dos coitados que tiveram sua vaga roubada por ele. Mas que importa? Seria famoso. Quem sabe poderia abandonar o plano ridículo de visitar a Preaca. Já Frôxo apenas imaginava, dentro da sua costumeira crise de risos, até onde aquela farsa iria. -… e a última dupla inscrita, senhoras e senhores! Quero uma salva de palmas para Zé e Zé! Só alguns murmúrios foram a resposta da torcida. Podia-se escutar uma tossida aqui ou acolá, mas só isso. Blue agitava a mão freneticamente, como se estivesse respondendo a alguma recepção calorosa o público. Frôxo olhava desconfiado, certo de que tinham sido descobertos. Depois deste momento constrangedor, Faisão prosseguiu anunciando as chaves do grande campeonato.
Assim que se acalmou mais, Frôxo viu um conhecido entre os participantes do torneio. Tentou chamar a atenção de Blue, que estava em um estranho estado de transe, preparando-se para as partidas: – Ei Blue, Uskabba está aqui! – Para de falar errado, Frôxo. O certo é “os caras estão aqui”. – Você não entendeu! É Uskabba! – Frôxo, eu tenho que me concentrar para o jogo. Não é hora para lições de gramática. – Olha pra lá, idiota! Blue olhou para onde Frôxo apontou. Finalmente entendeu tudo: – Ah, mas por que você não disse antes? É Uskabba! Vá lá falar com ele Frôxo! – E-eu? – É, você. Veja se descobre alguma pista nova sobre o Gózzum. Eu, como você pode ver, estou ocupado me preparando para o torneio. Frôxo acabou concordando. Afinal, a única chance de reaver seu dinheiro era com a vitória deles no torneio. Como ele não entendia nada de dominó autista, esperava que Blue estivesse muito bem preparado. Então, para não atrapalhar Blue, ele foi conversar com Uskabba. Mal se aproximou, ele já foi logo acenando: – Olá jovem! Que surpresa encontra-lo aqui. Onde está aquele espirituoso rato? – Er, bem, ele está logo ali. – Vejo que entraram no torneio. Se bem que não foi de maneira muito “honesta”, não foi? A espinha de Frôxo gelou. Então ele sabia de tudo? Como descobriu? Frôxo apenas apressou-se em dizer: – Não foi culpa minha! – Calma, jovem, calma. Seu segredo está seguro comigo. Afinal está longe dos meus interesses em prejudicar alguém tão corajoso. – C-corajoso? – Claro que sim! Veja, enfrentar de uma só vez Flautulos e Você-Sabe-Quem é realmente uma incrível e corajosa empresa. Como é que ele sabia tanto? Frôxo, inocente como sempre, estava com esta dúvida na cabeça. Se ele conhecesse alguma coisa sobre os elfuleras, não estaria assim tão surpreso. – Como é que você sabe? – Sei de nada! – Mas… – Ora, deixe isso pra lá. Ainda pretendem ir até à Preaca? – Er… – Sim, eu sei que pretendem. Mudando de assunto, eu sei também que você não conhece nada sobre dominó. Então, enquanto o torneio não começa, vou explicar-lhe as regras deste nobre esporte. – Você lê mentes por acaso? Uskabba riu com gosto. O segredo de um elfulera nada tem a ver com ler mentes, mas sim em ter os contatos certos nos locais certos. – Não, meu jovem. Vamos até a minha mesa. Lá posso ensinar o básico. Chegando lá, Frôxo viu uma estranha figura. Era um velho, de barba enorme, usando um manto cinzento e um curioso chapéu pontudo. Em uma das mãos segurava um cajado. A outra segurava um manual de dominó autista. Estava, aparentemente, dormindo sentado à mesa. – Bem, Frôxo, este é o meu parceiro de dominó, o mago Jubolf. – Mago? – É, mago. Dizem que ele é muito poderoso mas – Uskabba aproximou-se do ouvido de Frôxo e continuou num sussurro– pra mim ele é só um velho maluco. Subitamente o velho acordou e gritou apontando para Frôxo: – FOI VOCÊ! EU VI! Frôxo estava com os nervos à flor da pele desde que entrara ilegalmente no campeonato. O susto que o velho lhe deu foi suficiente para fazê-lo cair aos seus pés, suplicando aos prantos: – Por favor, não foi minha culpa! A idéia foi de Blue! Não me prenda! Por favor! – Do que você está falando? Prender você por quê? Froxô se recompôs totalmente: – Então você não sabe? Desculpa, me enganei. Pensei que falava sobre… ah, não importa. Sobre o quê você falava? – Da visão que tive, lógico. – Visão? Que visão? – Você, meu jovem. Seus erros irão trazer-lhe sofrimento muito em breve. Não sairás vivo deste estádio. Despertarás a ira de muitos. Vi pedras e sangue em teu caminho. Cabô meu filho. Game over. Perda total. Desiste. Quer um conselho? Mate-se enquanto pode. E ao dizer estas edificantes palavras, Jubolf voltou ao seu imperturbável sono. Frôxo estava atônito. Mas Uskabba dava-lhe tapinhas nas costas, como se o velho houvesse profetizado a mais maravilhosa fortuna. Frôxo não entendeu: – Você escutou o que ele disse? – Escutei sim, e devo dizer, Jubolf nunca erra uma profecia. – Obrigado por me animar. – Calma meu jovem. Jubolf nunca erra uma profecia, porém ele profetiza o inverso do que vai acontecer. – Hein? – Vamos, deixe eu te ensinar as benditas regras. Você vai ver por si só. Apenas não comente nada com ele. Frôxo não se sentiu nem um pouco mais animado. Não acreditou no que Uskabba disse, e não conseguia enxergar uma maneira de sair dali. Restava apenas esperar por uma chance. Quem estaria certo? Uskabba ou Jubolf? Veremos no próximo capítulo.